18 de agosto de 2017

Monstress. Marjorie Liu e Sana Takeda (Saída de Emergência)

Monstress é uma bateria ou amálgama de géneros que, não tendo, possivelmente, um elemento propriamente original, produz uma combinação equilibrada e curiosa. Steampunk, fantasia épica e negra, histórias de monstros, Bildungsroman, ficção científica, ficção feminista, são os tijolos que montam a sua estrutura, sendo a argamassa uma pesquisa sobre a individualidade perante a cruel e abjecta injustiça da escravatura e do racismo provocadas pela guerra. Mas ao mesmo tempo espraia-se uma história centrada na senda de uma protagonista em torno de respostas sobre a sua família, que poderá ter consequências para o seu mundo em geral. (Mais)

17 de agosto de 2017

A casa. Paco Roca (Levoir)

Graças aos esforços da Levoir, a entrada de vários títulos da banda desenhada espanhola contemporânea no mercado português é uma realidade. Ainda que não haja, aparentemente, uma política concertada e ritmada dessa mesma entrada, a colecção das Novelas Gráficas, que vai na sua terceira fornada (à qual voltaremos), e volumes soltos, como é este caso, assegura essa oferta (corroborada, pelo menos, pela Arte de Autor; mais, o mesmo se poderia dizer da banda desenhada brasileira, pelas mãos da Polvo, por exemplo, e de nenhuma outra editora, maior ou menor que estas). Seria, mais uma vez, discutível qual o espectro dessa mesma oferta dada a pluralidade de produção do nosso país vizinho, que neste caso não se pode chamar irmão dado o largo desconhecimento do público geral do que tem surgido em Espanha (e nem encetaremos a relação contrária), mas estamos em crer que o foco da Levoir é, em si mesmo, coerente: autores interessados em discursos contemporâneos, autorais, muits vezes de narrativas pessoais e quotidianas, e menos interessados em géneros clássicos ou mesmo espectaculares, e atreitos a formas narrativas convencionais e acessíveis a um público alargado, não necessariamente fãs de “bd de género”, mas de toda uma sorte de literatura (o que incluirá outras formas mediáticas). (Mais)

14 de agosto de 2017

Miracleman. A Idade de Ouro. Neil Gaiman e Mark Buckingham (G. Floy)

Antes de mais, queríamos esclarecer a declaração de intenções, uma vez que, tendo sido os tradutores deste volume, somos parte interessada no projecto.

Dito isto, e na continuidade de alguns projectos da editora, que nos tem disponibilizado alguns dos melhores títulos do mainstream norte-americano contemporâneo (Saga, Fatale, Southern Bastards), e depois de uma edição com todo o run de Alan Moore (a que corresponderiam 3 livros), eis que se publica um volume com todo o material criado e publicado na época por Neil Gaiman e Mark Buckingham, herdeiros imediatos do anterior autor, e seus múltiplos colaboradores artísticos. Como é consabido, o Miracleman, nas mãos de Moore et al., transformar-se-ia no principal cadinho e laboratório de cruzamentos de muitas das noções daquele autor britânico que tanto seriam influentes no seu próprio trabalho no território dos super-heróis como depois em todo este género, e a que se viria a dar muitos nomes, desde “desconstrutivismo”, a “pós-moderno”, até mesmo “maturidade” ou “revisionismo”. Não é que algum desses termos esteja errado, mas tampouco serão completos. Seja como for, é inegável que se encontrariam aí muitos dos elementos que depois se tornariam inevitáveis na esmagadora maioria da produção deste género. (Mais)

2 de agosto de 2017

Punk Comix/Corta-e-Cola. Marcos Farrajota/Afonso Cortez (Chili Com Carne/Thisco)


Parafraseando Frank Zappa a propósito do jazz, o “punk não está morto, mas já cheira um bocado mal”. Ou talvez não. Este projecto já estaria anunciado há algum tempo, com alguns sinais aqui e ali, por blogs, conversas e encontros de cariz de vária natureza, do mais académico ao mais descontraído, e com associações metastásicas por linhas paralelas que apenas o tempo dirá se se complementam, se se opõem ou simplesmente se atropelam. Seja como for, os esforços gémeos de Marcos Farrajota e de Afonso Cortez encontram aqui um caminho que se sustenta mutuamente num split-book, em que o primeiro ausculta as relações da noção cultural do “punk” com a banda desenhada em Portugal, e o segundo faz uma história variada do movimento musical entre nós, nos vinte anos que distam de 1978 a 1998. Por razões que têm a ver com a nossa própria especialidade e conhecimentos, falaremos apenas da “metade” de Farrajota, estando em crer que o livro de Cortez esteja na excelente linha de produções a que a editora tem presidido com o conjunto de ensaios sócio-culturais em torno de fenómenos musicais de Rui Eduardo Paes. (Aborrece-nos apenas recordar que o único vinil que tínhamos desta colheita, e que aparece citado, foi quebrado contra o chão por razões sem qualquer importância...) (Mais)