18 de agosto de 2017

Monstress. Marjorie Liu e Sana Takeda (Saída de Emergência)

Monstress é uma bateria ou amálgama de géneros que, não tendo, possivelmente, um elemento propriamente original, produz uma combinação equilibrada e curiosa. Steampunk, fantasia épica e negra, histórias de monstros, Bildungsroman, ficção científica, ficção feminista, são os tijolos que montam a sua estrutura, sendo a argamassa uma pesquisa sobre a individualidade perante a cruel e abjecta injustiça da escravatura e do racismo provocadas pela guerra. Mas ao mesmo tempo espraia-se uma história centrada na senda de uma protagonista em torno de respostas sobre a sua família, que poderá ter consequências para o seu mundo em geral. (Mais)

17 de agosto de 2017

A casa. Paco Roca (Levoir)

Graças aos esforços da Levoir, a entrada de vários títulos da banda desenhada espanhola contemporânea no mercado português é uma realidade. Ainda que não haja, aparentemente, uma política concertada e ritmada dessa mesma entrada, a colecção das Novelas Gráficas, que vai na sua terceira fornada (à qual voltaremos), e volumes soltos, como é este caso, assegura essa oferta (corroborada, pelo menos, pela Arte de Autor; mais, o mesmo se poderia dizer da banda desenhada brasileira, pelas mãos da Polvo, por exemplo, e de nenhuma outra editora, maior ou menor que estas). Seria, mais uma vez, discutível qual o espectro dessa mesma oferta dada a pluralidade de produção do nosso país vizinho, que neste caso não se pode chamar irmão dado o largo desconhecimento do público geral do que tem surgido em Espanha (e nem encetaremos a relação contrária), mas estamos em crer que o foco da Levoir é, em si mesmo, coerente: autores interessados em discursos contemporâneos, autorais, muits vezes de narrativas pessoais e quotidianas, e menos interessados em géneros clássicos ou mesmo espectaculares, e atreitos a formas narrativas convencionais e acessíveis a um público alargado, não necessariamente fãs de “bd de género”, mas de toda uma sorte de literatura (o que incluirá outras formas mediáticas). (Mais)

14 de agosto de 2017

Miracleman. A Idade de Ouro. Neil Gaiman e Mark Buckingham (G. Floy)

Antes de mais, queríamos esclarecer a declaração de intenções, uma vez que, tendo sido os tradutores deste volume, somos parte interessada no projecto.

Dito isto, e na continuidade de alguns projectos da editora, que nos tem disponibilizado alguns dos melhores títulos do mainstream norte-americano contemporâneo (Saga, Fatale, Southern Bastards), e depois de uma edição com todo o run de Alan Moore (a que corresponderiam 3 livros), eis que se publica um volume com todo o material criado e publicado na época por Neil Gaiman e Mark Buckingham, herdeiros imediatos do anterior autor, e seus múltiplos colaboradores artísticos. Como é consabido, o Miracleman, nas mãos de Moore et al., transformar-se-ia no principal cadinho e laboratório de cruzamentos de muitas das noções daquele autor britânico que tanto seriam influentes no seu próprio trabalho no território dos super-heróis como depois em todo este género, e a que se viria a dar muitos nomes, desde “desconstrutivismo”, a “pós-moderno”, até mesmo “maturidade” ou “revisionismo”. Não é que algum desses termos esteja errado, mas tampouco serão completos. Seja como for, é inegável que se encontrariam aí muitos dos elementos que depois se tornariam inevitáveis na esmagadora maioria da produção deste género. (Mais)

2 de agosto de 2017

Punk Comix/Corta-e-Cola. Marcos Farrajota/Afonso Cortez (Chili Com Carne/Thisco)


Parafraseando Frank Zappa a propósito do jazz, o “punk não está morto, mas já cheira um bocado mal”. Ou talvez não. Este projecto já estaria anunciado há algum tempo, com alguns sinais aqui e ali, por blogs, conversas e encontros de cariz de vária natureza, do mais académico ao mais descontraído, e com associações metastásicas por linhas paralelas que apenas o tempo dirá se se complementam, se se opõem ou simplesmente se atropelam. Seja como for, os esforços gémeos de Marcos Farrajota e de Afonso Cortez encontram aqui um caminho que se sustenta mutuamente num split-book, em que o primeiro ausculta as relações da noção cultural do “punk” com a banda desenhada em Portugal, e o segundo faz uma história variada do movimento musical entre nós, nos vinte anos que distam de 1978 a 1998. Por razões que têm a ver com a nossa própria especialidade e conhecimentos, falaremos apenas da “metade” de Farrajota, estando em crer que o livro de Cortez esteja na excelente linha de produções a que a editora tem presidido com o conjunto de ensaios sócio-culturais em torno de fenómenos musicais de Rui Eduardo Paes. (Aborrece-nos apenas recordar que o único vinil que tínhamos desta colheita, e que aparece citado, foi quebrado contra o chão por razões sem qualquer importância...) (Mais)

27 de julho de 2017

O Homem que passeia. Jiro Taniguchi (Devir)

Em boa-hora é relançado este título junto ao público português, numa nova tradução (e novo título), e num formato melhorado, ou pelo menos, individualizado, do que a anterior edição da própria Devir através da colecção Série Ouro com distribuição do Correio da Manhã, há mais de dez anos. Todavia, precisamente por termos feito uma leitura, que esperamos ainda pertinente, da mesma obra então, a esse texto remetemos, deixando aqui considerações de outra natureza. 

O objecto é em si tem outras diferenças substanciais. Materialmente falando, tem uma capa mais atraente e que se prevê ser um projecto gráfico sustentado na nova colecção de mangá da editora, com trabalhos de maior maturidade e para um público mais generalista. Poder-se-ia ter imaginado numa encadernação mais robusta, próxima da colecção Écritures, da Casterman (com a qual partilha o mesmíssimo formato), mas haverá razões substanciais para esta opção. Em termos de conteúdo, porém, a escolha da Devir é bastante feliz. Em primeiro lugar, não temos aqui uma edição que reconstitua as páginas numa ordem de leitura ocidental e em que cada vinheta se mantém idêntica mas numa posição relativa da prancha invertida, e muito menos as antigas edições “flipped”, em que pura e simplesmente se apresentava uma inversão de toda a prancha. É uma edição tal qual a original japonesa, permitindo esta magia visual tão própria da banda desenhada e passível de ser desfrutada pelos leitores não-japoneses (de resto, prática da casa). (Mais)

24 de julho de 2017

Adeus & Hello.


A partir de hoje, o Lerbd não continuará a sua actividade nos mesmos moldes. Neste espaço, escreveremos quase exclusivamente sobre material que seja publicado em língua portuguesa, nacional, brasileira ou traduzida, de banda desenhada e ilustração, ou outros assuntos que tenham lugar entre nós. Mas a esmagadora maioria das publicações estrangeiras a que vamos tendo acesso, inclusive ensaística e académica, será canalizada para as várias plataformas com as quais colaboramos ou para o novo blog em língua inglesa, que aqui anunciamos. O mesmo ritmo manter-se-á, possivelmente, mas repartido em vários locais.
Mais uma vez agradeço aos leitores pacientes e interessados.
O Yellow Fast & Crumble está já disponível.

Veículo. D. W. Ribatski (Roax Press)


Este pequeno pró-zine de Ribatski não é seguramente um livro que coloque o nome do autor num espaço de grande visibilidade junto a um público mais alargado e convencional, por três razões imediatas: porque o autor tem outros projectos que asseguram essa posição, por este ser um objecto de menor circulação (uma publicação de 24 páginas, um panfleto) e pela sua matéria ser controversa, no seu sentido etimológico: isto é, a de ir numa”direcção contrária” àquela que é habitual.

Aparentemente, a narrativa parece focar num episódio algo estranho na vida banal de um empregado de escritório. Tímido, solitário e trivial na sua vida diária, Jonas vê a sua vida subitamente invadida por uma mulher que não conhece, a qual se posta no seu apartamento, nua, e que de certa forma se predispõe a que ele beba dos seus seios um líquido que jorra sem cessar, o qual ele compara com mel. Não há cenas de relações sexuais, mas de nudez, mímica de mamar como uma criança, e conflitos com outras personagens causadas pela confissão de Jonas desta situação. Todas as perguntas que adviriam deste “mistério” são, no fundo, goradas. (Mais)

11 de julho de 2017

Paiment accepté. Ugo Bienvenu (Denoël Graphic)

“Escolher e isolar constituintes do real, de lhes dar, através de uma estrutura, um sentido, um novo dia.” Esta é umas “confissões de arte” do realizador Bernet, o modo como ele explicita a sua função e visão dos filmes que faz e quer ainda fazer. Independentemente do género, da inscrição temporal, das circunstancialidades de produção do filme, o cerne está, portanto, nestes “constituintes do real”. Paiment accepté é uma espécie de ensaio sobre que elementos se preservam mesmo no meio da perda de controle de todos os meios de produção. (Mais)

10 de julho de 2017

Clube Mediterrâneo. J. P. Mésseder, A. Biscaia., J. Monteiro (Editora dos Tipos/Xerefé)

Imaginemos. Daqui a quarenta, cinquenta anos, olharemos para trás e assinalar-se-á o “Dia do Holocausto do Mediterrâneo”. Talvez a palavra seja outra, uma vez que se pretendem exclusividades mesmo na hora do sofrimento, da morte e da barbárie humana, lançando a ideia de escândalo pela comparação, excusando-se o mesmo peso de responsabilidades e invertendo os factores de vitimização. Far-se-ão monumentos, documentários, filmes ficcionados, obras de literatura, palestras, discussões, sobre uma das maiores catástrofes (esperemos) do início do século XXI, já que também temos direito aos nossos próprios horrores. E então fantasiaremos... “Se tivesse vivido na altura....”, “Se pudesse, tinha feito...”, “Como é que não se agiu a tempo?”. E sentir-nos-emos melhor, e continuaremos as nossas vidas. (Mais) 

7 de julho de 2017

Coisas de adornar paredes. José Aguiar (Polvo)

Este livro segue uma estrutura clássica de hipodiegese, isto é, de existirem histórias dentro de uma outra história, de maneira que tanto poderíamos encarar Coisas de adornar paredes como a colecção dos oito breves contos que ocupam a parte de leão do volume, e procuremos entender como é que se coordenam tematicamente entre si, como antes compreender o esforço de Chico, protagonista na narrativa enquadradora, em os construir, e ver cada um deles como expressão e peça do pretende reflectir sobre ele mesmo. Uma vez que surge a oportunidade de ver uma discussão metatextual sobre os “contos” pelas personagens, o seu autor, Chico, e seus interlocutores, Ana e Caio, os sentidos previstos ou potenciais dos primeiros acabam por ser tornar tão explícitos como ambíguos no nível superior. (Mais)

3 de julho de 2017

4 títulos Sociorama. AAVV (Casterman)

A propósito de Chantier Interdit auPublic, explicámos o contexto de produção e publicação dos títulos desta colecção, Sociorama, que, dizendo-o de modo simplista, são adaptações de trabalhos de cariz académico na disciplina da sociologia. Daí que se compreenda que as capas revelem não somente o nome dos autores artísticos que lavraram estas bandas desenhadas, mas igualmente o dos investigadores, de forma a que se sublinhe a precisão e instrumentos dessa pesquisa original. Alguns desses trabalhos foram já publicados em volume, outros existem ainda sob a forma de teses universitárias. Seja como for, são resultado da instrumentação teórica, prática e desenvolvida no campo, em ambos os sentidos, disciplinar e de contacto com o terreno, desse saber das ciências humanas, que, de uma maneira ou outra, reflecte uma verdade de experiência das pessoas com quem contacta. Sendo os objectivos gerais da sociologia a compreensão do indivíduo e dos grupos que possa completar inseridos na tessitura social e externa, não se trata tão-somente de entrevistas a esses mesmos indivíduos, mas à criação de toda uma contextualização global que tanto integra como destaca a experiência que se está focando. (Mais)

1 de julho de 2017

Curso de banda desenhada na Nextart.

Serve o presente post, tal como ocorreu no ano passado, para indicar que estão abertas as inscrições para os cursos de Verão na Nextart, entre os quais se encontra um curso breve de introdução à linguagem, estruturas e criação de banda desenhada, ministrado por este vosso criado. A primeira fornada ainda tem algumas vagas.

Caso estejam interessados, as portas estão abertas. Ou passem palavra.  

Mais informações directas aqui.
Nota: imagem de Hugo Maciel (estudos para projecto em curso).

Vies de Marko Turunen. Marko Turunen, com Tea Tauriainen (Frémok)

Por várias ocasiões, falámos aqui dos territórios movediços e ambivalentes da autobiografia, a auto-ficção, a auto-fantasia, e outros descritivos que tanto assinalam como ofuscam o acto de recontar a sua própria vida sob uma forma qualquer artística, seja a literária, a cinematográfica, a teatral, as das artes visuais ou a da banda desenhada. Cada acto, na verdade, tem sempre os seus próprios contornos, pequenas redistribuições dos elementos expectáveis ou familiares, cada gesto as suas próprias contribuições únicas e aproveitamentos de semelhanças com outros textos. E, assim, ao pensarmos em constelações variadas que abarquem Miné Okubo, Justin Green, Aline Kominsky, Guido Buzzelli, David B., Emmanuel Guibert e as suas fontes, Ana Cortesão, Marco Mendes, Francisco Sousa Lobo, vamos encontrando uma mancha tão informe quanto expansiva quanto ainda complexa e numa mutação constante. Que pensar do último projecto do autor finlandês Marko Turunen? (Mais)

28 de junho de 2017

Colaborações: histórias curtas em antologias

Serve este post para indicar algo que já circula há algum tempo no mercado nacional, e que foi anunciado quando da sua publicação, por outras plataformas. Tratam-de duas antologias na qual colaboramos como argumentistas, não fazendo sentido, portanto, fazermos um alargado juízo de valor sobre os mesmos projectos. Tratando-se de dois projectos bem distintos em termos de humor, propósito e natureza, isso revela-se na própria qualidade das histórias propostas por nós.

Crónicas da Comic Con trata-se de uma antologia coordenada por Bruno Caetano para a Zero a Oito, e cujo fito era um diálogo entre alguns criadores de banda desenhada com o famoso certame que tem tido lugar em Leça da Palmeira, para celebrar todo um sector da cultura popular. Nesse volume, participamos com duas histórias, "Dia da Caça", uma peça cómica com Marta Teives em torno de algumas das possíveis ideias do multiverso e variações de personagens famosos, e "Um para todos, tudo para um", com Nuno Rodrigues, um everything-bender dessas mesmas culturas mas procurando celebrar esses divertimentos de uma forma simples. Estamos numa companhia variada e não obstante a leveza do projecto, há competências asseguradas nas peças dos vários autores.

Dando início ao que se espera adivinhar como uma série de volumes de histórias curtas dos autores do The Lisbon Studio, e de certa forma dando continuidade a uma relação pessoal com esse colectivo mas mais particularmente com a artista Marta Teives, participámos com uma curta intitulada "O rasto do fantasma", que surge como uma mescla entre história de um quotidiano realista e alguns contornos onírico-poéticos. TLS Series: Cidades apresentar-se-á como uma colectânea de peças subsumida a um tema, e procurámos sublinhar essa palavra através da flânerie, as palavras e o amor.  A companhia é significativa, se bem que muito diversa igualmente.

Ficam os agradecimentos aos artistas que aceitaram o desafio ou que estenderam esse desafio, assim como aos editores respectivos.

24 de junho de 2017

Aventuras na Ilha do Tesouro. Pedro Cobiaco (Kingpin)

Mais do que uma convergência, ou acumulação de referências, este livro maior de Pedro Cobiaco assinala uma possibilidade de cruzamentos frutíferos entre o que pareceria, até há uns anos, linhas de desenvolvimento temático, formas de pesquisa formal e conteúdos emotivos e conceptuais distintos, ou até mesmo incompatíveis. Mas uma das qualidades da contemporaneidade tem precisamente a ver com uma ultrapassagem de fronteiras que, até esse momento, pareciam seguras, sólidas e bem delineadas. Após a sua travessia, notam-se como sendo tão naturais, tão necessárias na obra, que o seu questionamento se dissipa de imediato na sua leitura. (Mais)

20 de junho de 2017

O convidador de pirilampos. Ondjaki e António Jorge Gonçalves (Caminho)

Na física existe um fenómeno relativo às frequências de ondas da luz, em função da velocidade relativa existente entre a fonte dessa mesma luz e o observador. Bem mais complexo do que o nosso uso metafórico poderá atingir, digamos apenas que existem os “desvios para o vermelho” e “desvios para o azul”, assinalando este último o caso em que a fonte dessa luz se vem aproximando do espectador. Por outras palavras, o vermelho seria sinal de expansão, ao passo que o azul de contracção. Muito possivelmente, esta descrição e uso metafórico não tem qualquer préstimo na leitura de O convidador de pirilampos, mas não podemos deixar de sentir que a família cromática que alimenta o “fundo” (já lá iremos) das imagens convida-nos a irmos além de interpretações de representação superficial (cenas nocturnas) para chegar a um gesto de convite, previsto no próprio título. Tendo deixado uma nota brevíssima sobre este volume anteriormente, voltamos aqui com uma leitura mais dirigida. (Mais) 

18 de junho de 2017

Nimona. Noelle Stevenson (Saída de Emergência)

Nimona é uma personagem intempestiva, irreflectida, violenta, inconsequente, com um sentido de humor duvidoso, e de oportunidade enxovalhado, enfim, um péssimo “modelo de comportamento moral” para qualquer criança ou adolescente. As mortes, destruição, uma certa paixão pelo caos, as suas alianças pouco saudáveis, causadas pela protagonista, tornam-na com efeito um péssimo exemplo se se pretender instigar nos jovens leitores um manual de comportamento e de civilidade. Mas esse não é, felizmente, o fito de Nimona. (Mais)

12 de junho de 2017

Nagual. Diniz Conefrey (Quarto de Jade)

Com O livro dos dias, e desdobrando-se numa série de exposições, palestras, workshops, e outros gestos, sabíamos que o diálogo, senão mesmo entrega, de Diniz Conefrey à cultura ameríndia era de uma intimidade absoluta. Não se trata tão-somente de um “fascínio”, que já antes descrevêramos como um prazer que advém da ignorância, mas um saber que bebe de uma incessante pesquisa, inquirição e respeito. E tampouco se trata, nunca!, de um mero aproveitamento superficial que seria transformado em “tema recorrente” ou “assunto”, que depois se exploraria de várias maneiras. Trata-se de facto de um entrosamento e diálogo com aquela cultura para que se opere uma transformação da matéria visual-textual do autor num hausto novo, e seu, que se expressa de modos diferentes conforme o projecto. Nagual é um conjunto de histórias curtas que se apresenta então como novo ciclo dessa respiração. (Mais) 

10 de junho de 2017

The Comics Alternative: Entrevista a Christopher Pizzino.

Na produção assombrosa de Estudos de Banda Desenhada, ou de volumes académicos que a abarcam de forma séria, consequente e integrada em diálogos mais alargados, não apenas é agora difícil seguir tudo (mesmo que saibamos a língua, mesmo que haja acesso editorial, etc. o que nem sempre é verdade, criando imnsos blocos de pontos cegos), como ainda mais impossível ler os livros com atenção, compreender de imediato o seu impacto ou (palavra horrenda) "utilidade". Em breve, esperamos, faremos precisamente um exercício de leituras quase superficiais e céleres de uma pilha de volumes dessa produção.

Mas por agora, fiquemos por um volume no qual não apenas operámos, ou assim o esperamos, uma leitura atenta, como tivemos o privilégio de conversas alargadamente com o seu autor, sublinhando alguns dos aspectos mais importantes do seu livro. Como dizemos na resenha crítica inicial no The Comics Alternative, não temos dúvida de que o argumento central de Pizzino neste livro tornar-se-á um pilar dos estudos futuros. basicamente tem a ver com o alerta e um despertar aos discursos que se tecem em torno da banda desenhada, mormente norte-americana, que constrói uma ideia de "maturidade" conquistada ao longo dos últimos anos. Nessa história simplificada ("antes as bds eram simples e infantilóides, hoje são para adultos", numa caricatura bruta), acabam por se criar outros perigos de recepção social, desde a ideia, absolutamente errónea, de distinguir "os romances gráficos" do "resto" da banda desenhada, e, claro, a criação de hierarquias de juízos de valor entre material que parecerá "digno" de atenção crítica e académica e disciplinar, e todo um fundo "negligenciável". É um peso valorativo que incorre com menos precisão noutras áreas criativas e inflecte um estatuto diminuído a esta arte em particular.

Poderão aceder ao artigo introdutório e à entrevista aqui.

9 de junho de 2017

O rei macaco. Silverio Pisu e Milo Manara (Arte de Autor)

Adaptação. Versão. Devaneio. Fantasia. Comentário. Alegoria. Todas e quaisquer destas palavras serviria para presidir a uma descrição deste volume, ou talvez melhor uma mistura entre elas, procurando as linhas de força conceptuais de cada uma, operando sobre alguns dos elementos que a compõe. Uma obra primitiva do famoso Manara a caminho da sua primeira maturidade, numa colaboração com Silverio Pisu, autor de experiências variadas e que se exprimem neste livro. O título original é Lo scimmiotto, literalmente “macaquinho”, que também era o título pelo qual o clássico chinês, atribuído a Wu Cheng-en, Viagem ao Ocidente, havia sido traduzido à época em Itália. Na verdade, já nos referimos a esta obra há uns anos, quando da leitura de uma versão feita por Terada Katsyua, e a ela remetemos para devolução de um breve contexto da obra. Até certo ponto, poder-se-ia dizer que este volume é uma adaptação desse escrito literário, já que as personagens, os episódios, as expressões e apodos, os contornos fantásticos, se repetem a par e passo conforme a primeira parte da obra chinesa. Mas a adaptação de Pisu e Manara não apenas se mantém na primeira parte, até ao castigo de Buda que aprisiona o Rei Macaco sobre uma nova rocha (recordemos que ele nasceu de uma pedra, havendo portanto um pequeno ciclo de regresso à origem neste episódio), como transforma toda a novela dessa figura numa plataforma para a criação de uma alegoria política. (Mais) 

8 de junho de 2017

Klaus. Felipe Nunes (Polvo)

Este livro foi celebrado devido à idade do autor quando da sua publicação (19 anos) e, claro, alguns dos prémios ou atenções angariadas por esta sua conquista de elaborar uma narrativa coesa, concentrada, de mais de 100 páginas. Considerá-lo um “romance”, gráfico ou não, parece-nos ser algo hiperbolizado, devido à sua estrutura narrativa e à organização actancial das suas personagens e eventos. Nem sequer poderia ser descrito como novela, do ponto de vista literário, sendo antes um conto, o que não retira de forma alguma os contornos do que consegue cumprir nas suas pranchas. (Mais) 

6 de junho de 2017

Colaboração no The Comics Alternative: Fun, de Paolo Bacilieri

Uma das frases muitas vezes repetidas em blurbs, comentários, conversas de café, mas muitas vezes arvorada igualmente enquanto opinião pública, quase se quer hiperbolizar uma determinada leitura é, "este é um dos melhores livros que já li", ou variações. Mas essa construção não se poderia jamais disfarçar de crítica propriamente dita se não fosse acompanhada de, em primeiro lugar, um verdadeiro contexto de leitura (qual é a paisagem de leitura em questão, qual a circunstância do encontro, contra que outros exemplos se criaria essa hierarquia, etc.?) e, em segundo lugar, da argumentação necessária para sustentar tal afirmação.

O lerbd, estamos em crer, é um espaço suficientemente amplo e presente para providenciar um contexto de leitura, ainda que atreito a livros relativamente recentes, mas que criam um panorama, esperamos nós, o mais alargado possível no que diz respeito à banda desenhada (e além dela) em termos de agentes de produção. E acreditando na necessária variedade das leituras que não permite comparações directas entre livros bem distintos, de instrumentos "contrários", estilos paradoxais e propósitos divergentes, ainda assim forma-se sempre uma "massa" da qual emergem, de quando em vez, intensidades de prazer distintas. Ora, o livro Fun, do autor italiano Paolo Bacilieri, traduzido recentemente para a língua inglesa, é um desses projectos que cria uma espécie de "inveja da criação". E são todos os seus elementos constitutivos que o tornam digno da atenção de um público alargado. Deixamos algumas notas aqui.

5 de junho de 2017

Cemitério dos Sonhos. Miguel Peres et al. (Bicho Carpinteiro)

Se tivéssemos acesso directo ao mundo interior das nossas vidas, que escolhas faríamos? Se pudéssemos manipular os sonhos, corrigi-los, que cursos estabeleceríamos? Se pudéssemos apagar fantasmas, interrogar os mortos, recuperar memórias, esclarecer dúvidas e esquecimentos, reforçar a recordação de modo a que meras impressões fugazes ganhassem corpo de certezas, a que tipo de aventuras nos entregaríamos nesses territórios? Todas essas perguntas são puras especulações, impossibilidades não apenas pela matéria da realidade, da tangibilidade científica, mas até das próprias condições de possibilidade de ser humano. Nada obsta, todavia, a que através da fantasia não possamos explorar tais possibilidades. Cemitério dos Sonhos é uma viagem a essa possibilidade. (Mais) 

3 de junho de 2017

Lugar maldito. André Oliveira e João Sequeira (Polvo)

Existem toda uma série de fenómenos, ditos “entópticos”, em que parecemos ver algo pelo canto do olho mas, ao virarmo-nos, não vemos nada: serão apenas impressões que não compreendemos, serão sombras que não mapeamos, ou serão fantasmas que habitam os nossos espaços e nos rodeiam? Independentemente do território que a ciência pode iluminar, a impressão duradoura dessas mesmas sombras é quase indelével no tecido da cultura. Não cremos em bruxas, mas que as há... Lugar Maldito é um livro que revela a mais profunda verdade, e corrige aquela frase conhecida (ainda que mal citada) de Jean-Paul Sartre: não, o Inferno não são os outros. Somos nós. (Mais) 

30 de maio de 2017

Jardim de Inverno. Renaud Dillies e Grazia La Padula (Kingpin)

Não deixa de ser “natural” que a Kingpin tenha encontrado neste projecto a continuação de uma linha editorial que procura expandir. Não havendo dúvida de que o critério eleitor nessa integração tenha sido a prestação gráfica da autora italiana, acreditamos que terá a ver com certas afinidades estilísticas com Tony Sandoval, cujo recente Nocturno também foi publicado há recente pela mesma casa, e cuja colaboração também trouxe a lume Les echos invisibles (que imaginamos ser desejado pela editora). O que une La Padula e Sandoval é múltiplo: uma linha de contorno semi-livre e gestual, uma figuração entre o anatómico e o cute-grotesco dos cabeçudos do século XVIII, que já havíamos debatido a propósito de Phoenix, e uma aplicação de cores suaves mas exactas. La Padula, todavia, parece herdar outras características ligeiramente diferentes. Ainda que haja igualmente uma preocupação pelo acrescentar de pormenores nos cenários cheios, parece-nos ser mais devedora de um Nicolas de Crécy, ainda que sem atingir a mesma intensidade, verve e alucinação. Mas os cenários urbanos, abertos, imensos, distorcidos de acordo com boas práticas visuais, fazem-nos lembrar as vinhetas cheias de Le Bibendum celeste ou Journal d’un fantôme. É possível que tal comparação seja desequilibrada, em detrimento para com Padula, mas há um mesmo esforço, desejo e prestação. (Mais)

24 de maio de 2017

Colaboração no The Comics Alternative: entrevista a Maaheen Ahmed.

Por ocasião da leitura de Openness of Comics. Generating Meaning within Flexible Structures, entrevistámos a sua autora, Maaheen Ahmed, para o site The Comics Alternative. A introdução contém algumas ideias breves em torno do volume, e seremos breves aqui na sua descrição.

Em termos conceptuais, este livro vem trazer um contributo substancial, empregando a noção de "abertura" que havia sido delineada e teorizada por Umberto Eco, para a banda desenhada. Essa noção tem sofrido alguns abusos ao longo dos anos em certas abordagens que a empregam e aplicam, ou como o próprio Eco diria, escolhos da sobreinterpretação. Se nos for possível apresentar uma ideia simplificada, trata-se tão-somente do leque de interpretações possíveis, mas igualmente as suas limitações configuradoras, ofertados por um texto determinado graças a toda uma série de elementos presentes nesse próprio texto. Esses elementos apresentar-se-ão de uma forma "incompleta", exigindo uma participação activa da parte do leitor-espectador, o qual, completando o texto, colocá-lo-á numa forma mais finalizada no seu próprio acto individual de leitura (observação, experiência, interpretação, etc.). Não se trata, de forma alguma, de poder "interpretar o que se quer", num quase total abandono à total e infinita relatividade, que levaria a um esvaziamento da obra, na verdade, mas tampouco uma libertação da materialidade dessa mesma obra. 

Isso levará então à distinção entre alguns textos mais fechados, menos flexíveis, que não oferecem espaço para uma completação da parte do leitor, e outras mais abertas. Neste ponto, caberá a quem argumentar o tentar descobrir como é que esses elementos funcionariam para que se pudesse cumprir tal distinção. Ora, é precisamente esse o papel que Ahmed cumpre no seu livro, analisando um corpus impressionante de banda desenhada, sobretudo no que diz respeito à sua diversidade de origens geográficas, anos de produção, géneros, estilos e até mesmo campos culturais. Encontraremos alguns "clássicos" europeus, como A Balada do Mar Salgado e a obra de Tardi, mas igualmente trabalhos de alguns dos autores contemporâneos finlandeses, como Marko Turunen, e títulos do mainstream de super-heróis norte-americanos. Esta diversidade é relativamente inédita em livros académicos em língua inglesa, revelando Ahmed como não apenas uma leitora transversal (muitos o são) mas uma investigadora interessada mais na operacionalidade do conceito do que na estruturação social e estratificada da banda desenhada em termos de produção (uma das suas limitações enquanto discurso cultural, inclusive académico). 

O livro poderá, aqui e ali, sofrer de uma repetição de estratégias, uma vez que apesar da divisão de capítulos por género (aventura, ficção científica, noir, etc.), o argumentário regressa sempre ao mesmo ponto. Todavia, fica muito claro o que a autora pretende deixar nas mentes dos seus leitores, de forma a que estes possam, a partir daí, re-empregar esta noção. As leituras de Ahmed são, as mais das vezes, curtas, mas incisivas e iluminadoras, apenas diminuídas por pequenos deslizes factuais ou a ausência de um quadro mais sólido das referências do seu contexto específico (um preço a pagar pela economia de uma tão incrível variedade).

Poderão ler a entrevista aqui.

23 de maio de 2017

Mazzeru. Jules Stromboni (Casterman)

De acordo com uma crença da cultura autóctone da Córsega, os mazzeri (pl., singular mazzeru) são pessoas que têm um dom profético da morte de alguém da sua comunidade, por via de sonhos, o que remete desde logo a práticas provavelmente muito antigas e irmanáveis com algumas das estruturações experienciais dos (vários tipos de) xamanismos. Nesses sonhos, as pessoas imaginam-se caçando animais da natureza circundante – javalis, raposas, coelhos, cabras, etc. -, acto que revelaria o rosto daquele que depois morrerá. Como se poderá imaginar, crendo nestas possibilidades, a pessoa a quem cabe esta tarefa é tão integrada quando apartada da “normalidade” da sua sociedade. (Mais) 

22 de maio de 2017

Aurora. Felipe Folgosi et al. (Instituto dos Quadradinhos)

É provável que estejamos a observar um novo fôlego nas relações entre a banda desenhada brasileira e portuguesa nos tempos correntes. Se durante algumas décadas essa relação passava tão somente pela distribuição comercial de publicações made in Brasil (de produções locais ou norte-americanas, sobretudo), neste momento as acções desdobram-se em exposições, autores publicados em Portugal ou títulos brasileiros com uma recepção particular por cá. Não se poderá falar ainda de um equilíbrio mútuo, mas essas relações estão com efeito fortalecidas. Aurora parece ser mais um dos elementos que contribui para esse cruzamento, dada a forma como a editora tem procurado estabelecer contacto com agentes nacionais, inclusive este mesmo espaço. (Mais) 

19 de maio de 2017

Três Histórias Desenhadas. José de Almada Negreiros (Assírio & Alvim)

Este pequeno livro de bolso reúne as três mais longas histórias de banda desenhada que Almada criou para o jornal O Sempre Fixe, todas elas datando do ano de 1926, também as maiores que ele alguma vez criou (se bem que não as esgotam). São os seus títulos “Era uma vez...”, “O sonho de Pechalim” e “A menina serpente”. A edição em causa é criada a partir dos desenhos originais “que sobreviveram presentes no espólio do artista”, nas palavras de Mariana Pinto dos Santos, na nota final, e descritos por Sara Afonso Ferreira, na introdução, como estando num “caderno composto pelo autor que colou, em cada folha, um desenho numerado”. São essas circunstâncias físicas e apartadas do seu contexto original que permitem às editoras publicar as histórias com um desenho por página, o que reformula, de certa maneira, estas narrativas. Publicado no quadro da magnífica exposição patente na Fundação Calouste Gulbenkian ao escrever estas linhas, com curadoria de Mariana Pinto dos Santos e Ana Vasconcelos, a sua circulação pode ser vista, até certo ponto, como uma maneira de dar corpo às extensões polivalentes e multidisciplinares desta “revisitação” da obra de Almada, assim como a uma concretização física das especificidades desta obra em particular. Ela emergiu para existir como objecto reproduzido, dado à estampa. (Mais)

17 de maio de 2017

20/MAIO: 17h: "Da Iconofagia", encontro com Hervé Di Rosa, na NLF.

Car@s amig@s, no próximo Sábado, dia 20 de Maio, na Nouvelle Librairie Française, em Lisboa, decorrerá uma conversa entre o artista Hervé Di Rosa, figura fundamental de um certo "regresso à figuração" nos anos 1980 em França, e cultor da mais diversa produção de imagens, e este vosso criado. 
Estará patente uma pequena mas importante mostra bibliográfica e gráfica do autor, e a conversa rondará sobretudo as fronteiras diluídas pela sua arte entre territórios que muitos ainda forçam a estar separados.
Apareçam.



15 de maio de 2017

Martha & Alan. Emmanuel Guibert (L’Association).

Esta autobiografia tecida por um outro é um projecto notável. Uma vez que havíamos dedicado algum tempo ao debate do que significa em termos culturais este gesto de Guibert, o de criar vários livros “d'aprés les souvenirs d'Alan Ingram Cope”, em que a voz está na primeira pessoa mas toda a sua estruturação e mediação é feita por um “terceiro” (uma das palavras associadas à ideia de “testemunha” em termos etimológicos), remetemos às notas sobre o último volume de La guerre d'Alan e L'enfance d'Alan para compreender o pasto de onde emerge este novo livro. Todavia, Martha & Alan é uma criatura bem distinta, por questões formais, textuais e estilísticas. (Mais) 

13 de maio de 2017

Sticks Angelica, Folk Hero. Michael DeForge (Koyama)

Pensamos que este é o projecto narrativo mais longo do autor, se bem que ele não se apresente com uma estrutura tipificada de livro. Afinal de contas, trata-se de uma tira semanal (irregular, porém) publicada online ao longo de quase um ano (e ainda disponível aqui). E se existe uma história central unificada e quase-coerente, ao mesmo tempo existem consideráveis desvios, ”excreções” ou alterações do ponto de vista que permitem expandir a perspectiva sobre as situações graças a outras personagens que não a protagonista, Sticks Angelica, ou desarrumar a organização temporal. Seja como for, a forma como a “história” é fechada, com uma prolepse já depois da morte da personagem, torna todo o material numa unidade fechada e coesa. (Mais)

12 de maio de 2017

Les têtards. Pascal Matthey (L’employé du moi)

Ao olharmos agora para o conjunto de alguns dos seus livros, compreendemos que Pascal Matthey tem na autobiografia uma das suas preocupações centrais. Este pequeno volume vem na sequência de Le verre de lait, Pascal est enfoncé, do qual falámos largamente aqui, de Du shimmy dans la vision, e de outras pequenas peças espalhadas pelas mais diversas antologias. Conforme o que já havíamos discutido a propósito desse livro anterior, a equação entre autobiografia, auto-ficção, desvio autobiográfico, versão, etc. é algo elástica, e é tão necessária na sua categorização ou análise quanto supérflua na sua leitura. Depende, portanto, da escala de atenção. (Mais) 

3 de maio de 2017

Heavy Metal, l'autre Métal Hurlant. Nicolas Labarre (Presses Universitaires de Bordeaux) & entrevista no The Comics Alternative.

Por ocasião da leitura deste livro, entrevistámos o seu autor, na nossa colaboração com The Comics Alternative. A entrevista está disponível aqui. Uma vez que nesse outro texto tecemos outras considerações e a própria entrevista sublinha aspectos do livro de Labarre, ficam aqui apenas alguns outros apontamentos complementares. O foco deste livro são os primeiros anos da revista norte-americana Heavy Metal (HM), no quadro da sua relação directa com a influente publicação francesa Métal Hurlant (MH). Com efeito, a HM nasceu como um projecto editorial afecto à plataforma que publicava a National Lampoon, até certo ponto uma herdeira mas igualmente desvio da Mad magazine, e que tinha como objectivo a divulgação desse material europeu nos Estados Unidos. Todavia, até hoje a HM é vista como uma versão deslavada, necessariamente inferior, da Métal Hurlant: menos experimental, menos influente, mais atreita a géneros de pouca intensidade criativa (ficção científica e high fantasy “clássicas”) e um claríssimo propósito machista, com as suas capas de pinups. Não é que essa imagem seja totalmente injusta, mas o grande objectivo de Labarre neste volume é corrigir a exatidão histórica das relações entre as revistas e uma mediascape mais alargada e, de certa forma, matizar o juízo sobre a revista americana, a qual criou “uma forma inédita nos Estados Unidos de negociar a articulação entre o underground e a banda desenhada de grande público” (207). (Mais)

30 de abril de 2017

RIP. François Henninger (auto-edição)

A presença da colagem como um dos possíveis instrumentos da banda desenhada não é de forma alguma uma novidade. Num artigo presentemente no prelo, num livro colectivo dedicado à abstração em banda desenhada, regressámos ao livro 978 de Pascal Matthey e à obra de diceindustries para tentar compreender não apenas esta “tendência” como também quais os contornos precisos da técnica e as suas potencialidades expressivas, políticas e de representação. Se podemos falar de Jack Kirby num campo estrito da banda desenhada, também poderíamos arrolar Max Ernst, Jess e Cátia Serrão em práticas mais expandidas e contaminadas da banda desenhada ou nas suas margens confundidas com as artes visuais. O alcance deste pequeno zine de François Henninger – com que nos havíamos cruzado em algumas publicações alternativas, e de quem lêramos Lutte des corps et chutes de classes – leva muitas das revisitações do material mortificado pela tesoura a atingir paroxismos maximais, que poderão devolver alguma urgência à banda desenhada que serviu de “matéria-prima”. (Mais) 

27 de abril de 2017

Três títulos da Avery Hill. AAVV.


Três passeios por paisagens inconstantes. A Avery Hill é uma recente e pequena editora londrina que parece disposta a fazer apostas numa certa diversidade de linguagens da banda desenhada, que tanto poderá compreender gestos algo experimentais como outras abordagens mais convencionais, mas ainda assim informadas por sensibilidades e estilos contemporâneos, abertos a um diálogo entre vários géneros, e sempre sob o signo da tranquilidade. Dos que nos foi dado a ler, vimos precisamente como constante a exploração dos mais distintos mundos ficcionais, que podem compreender a ficção científica, a fantasia, o fantástico, o mundano e até o horror, mas sempre numa pausada e certeira caminhada. Os três livros que trazemos aqui à colação, de uma forma ou outra, dão-nos a impressão de estarem unidos por “passeios” idênticos, sejam eles mais próximos da ficção ou da autobiografia, e procurando vários graus de experimentação gráfica, narrativa ou de composição. (Mais) 

24 de abril de 2017

Colaboração no The Comics Alternative: It's No Longer I That Liveth, Francisco Sousa Lobo.

O último livro de Francisco Sousa Lobo inscreve-se de uma maneira intensa no seu projecto contínuo de auto-ficção. As afinidades com aquilo a que chamámos o "Poema Contínuo" de Baudoin é por demais assinalado na obra de Lobo, um pouco como, se bem que com instrumentos distintos, dos de Marco Mendes no seu Diário rasgado. Este último título traz para primeiro plano a relação complexa coma fé, a sexualidade e a difícil comunicação com os outros seres humanos, no cadinho mais tumultuoso da vida de uma pessoa na sociedade ocidental: a adolescência. Menos do que um Bildungsroman, It's No Longer That I Liveth é uma demolição da personalidade, uma mortificação, para nela tentar ver se existe alguma fagulha ainda sobrevivente... O texto maior sobre este livro foi escrito em inglês para The Comics Alternative, deixando aqui o link directo.

15 de abril de 2017

Gaïa. Thierry Cheyrol (La Cinquième Couche)

Se tivermos em conta alguns dos exemplos incluídos em Abstract Comics, e experiências quer narrativas como algumas das peças incluídas em A Graphic  Cosmogony ou mais experimentais como 978, apercebermo-nos-emos de que tem surgido uma espécie de tendência em explorar formas de representação das transformações e devires em tempos dilatados, através das potencialidades expressivas da banda desenhada, para criar quadros de compreensão à escala humana. Noutras palavras, transformar a banda desenhada numa espécie de filtro, gráfico neste caso, que permita “dar a ver” fenómenos usualmente for do campo da visibilidade ou experiência humanas, de uma forma a poder criar um qualquer grau de relacionabilidade. (Mais) 

9 de abril de 2017

Torrente de ilustração (várias editoras).


Permitam-nos iniciar este texto com uma nota pessoal e um pedido de desculpas. A nota pessoal prende-se com uma justificação de termos estado “em silêncio” em relação a toda uma série de livros ilustrados para a infância que têm sido publicados nos últimos meses em Portugal, não por falta de atenção e menos ainda por falta de interesse, mas devido a vários compromissos profissionais e académicos que nos têm impedido de poder fazer uma recepção crítica mais atempada, individualizada e específica a cada um desses projectos. O pedido de desculpas deve-se às editoras, que têm sido generosas em deixar-nos a par das suas novidades e apostas editoriais, que não acarreta de forma alguma a obrigatoriedade de escrever sobre elas mas parte de um pressuposto de atenção, dada a (ainda) desequilibrada recepção crítica desta produção nos meios de comunicação mais massificados, e mesmo nos mais especializados reduzidos muitas vezes a discursos impressionistas. Porém, esse pedido de desculpas deve ainda dizer respeito ao presente texto, pois ao abordar mais de trinta títulos de um só fôlego, é mais do que natural que incorramos numa profunda injustiça, já que nem poderemos entrar numa leitura formal pormenorizada que cada título mereceria nem poderemos dar conta de um juízo de valor mais argumentado e claro. (Mais)

3 de abril de 2017

Trump Card. Rudolfo (Chili Com Carne/Ruru Comix)

Já em ocasiões anteriores havíamos falado dos projectos do artista conhecido por Rudolfo, inclusive aqueles em que a personagem Musclechoo aparecia nas suas estranhas aventuras. “Estranhas” aqui deverá ser lido como sinónimo de híbrido, não apenas no que o seu nome revela, mas igualmente em termos de géneros de banda desenhada, que não escondem as suas clássicas características, que o autor revisita, misturando-os. (Mais) 

1 de abril de 2017

Silent Agitators. Kent Worcester (auto-edição)

Já nos havíamos cruzado neste espaço com Worcester por ocasião do volume por si co-editados, AComics Studies Reader, se bem que ele tem trabalhado noutros projectos associados à banda desenhada (o volume dedicado a Peter Kuper na colecção Conversations da UPM, um The Superhero Reader, etc.). Este título é uma auto-edição de toda uma série de pequenos artigos, quase uma trintena de entradas, que foram publicadas na New Politics (que é publicada duas vezes por ano) entre 2003 e 2016. Esta secção, intitulada “Word and Pictures”, permitiu a Worcester uma exploração inclusiva do tipo de trabalhos abordados, mas sempre sob uma mesma perspectiva. Como explica na introdução, com vista a uma certa “correcção” em relação ao tipo de objectos maioritariamente estudados na academia – o círculo dos Estudos de Banda Desenhada, para o qual ele próprio tem contribuído, afinal -, pretende aqui focar-se sobretudo em trabalhos de natureza política. Combativa, directa, endereçada, sejam caricaturas, cartoons ou banda desenhada (ficcional ou não), toda esta produção visa, como implica o título do livrinho, “agitar”. (Mais) 

31 de março de 2017

Comic Strip. Gerard Richter (Walther König)

Apesar deste não ser um espaço de novidades, gostamos, dentro da medida do possível, de ir seguindo o ritmo das publicações mais recentes, alimentando uma atenção particular para com as novas tendências das linguagens que nos interessam. Este livro foi publicado em 2014, mas tendo-nos escapado entretanto, e graças à chamada de atenção de Domingos Isabelinho, esta é uma daquelas oportunidades em que o “atraso” se justifica mais que o silêncio. Até porque a importância e valor deste livro vem contribuir para os temas e questões que mais têm alimentado o nosso trabalho pessoal, pesquisas académicas e preocupações docentes: a linha diáfana entre os ditos “mundo da arte” e a “banda desenhada”, e a maneira como as respirações de um a outra são bem mais complexas do que usualmente se retrata e, mesmo ao contrário da vontade e opinião dos guardiões das fronteiras estéticas, a transmissão e influência é bem mais dual e completa do que se costuma mostrar. (Mais)

30 de março de 2017

La bande dessinée au tournant. Thierry Groensteen (Les Impressions Nouvelles)

Estando nós particularmente “atrasados” em dar conta de dezenas de novos livros teóricos, académicos e ensaísticos sobre a banda desenhada e outras disciplinas, dado o nosso próprio percurso de investigação, mas aos quais esperamos retornar em breve, mesmo que sumariamente, tentemos porém regressar de forma sucinta e tímida, com este último opúsculo de Groensteen. (Mais)

1 de Abril: Seminário Banda Desenhada e Pensamento Político: Sessão 5

O Seminário iniciado em finais de Novembro chega à sua quinta sessão, num ambiente bem diferente. Desta feita, encontrar-nos-emos na galeria Zaratan, espaço privilegiado de desassossego e interrogações estéticas de todos os azimutes, e os convidados são Marcos Farrajota, no seu papel de editor da Chili Com Carne e autor de bandas desenhadas de reportagem cultural, e José Smith Vargas, autor de banda desenhada que se tem "epecializado", se assim se pode dizer, em reportagens em torno de questões políticas, sobretudo na secção "Mapa Borrado" do jornal Mapa

A discussão rondará o tema da "cidade e da multidão", tema particularmente baudelariano, mas esperamos que a nossa flânerie nos leve às questões que neste momento mais urgem na cidade de Lisboa, em Portugal ou mais além, num esforço de politizar a cidadania, e com a banda desenhada.

29 de março de 2017

Parker, vols. 2 e 3. Richard Stark e Darwyn Cooke (Devir)

Uma vez que já havíamos falado alargadamente da estrutura literária e da forma dialogante entre a adaptação em banda desenhada de Cooke e os romances de Stark, passaremos à leitura imediata dos livros em si. Ficando ainda a nota de homenagem ao artista, cuja morte foi uma surpresa triste há tempo recente.

Cada um dos volumes de Parker lê-se com efeito como uma novela centrando-se nos “trabalhos” a que o criminoso se entrega. É curioso como apesar de o acompanharmos e termos mesmo direito de ir compreendendo alguns dos mecanismos psicológicos que o movem, e o tipo de “ética”, se assim se pode dizer, que pautam o seu profissionalismo, há sempre um limite curto desse mesmo conhecimento. Parker é ainda um homem misterioso, silencioso, que não se deixa endrominar por explicações fáceis. Todavia, essa distância com o leitor é também aquilo que impede uma qualquer empatia ou simpatia total por uma personagem que não esconde de forma alguma ser um sociopata (mesmo que isso seja fruto das alterações mais violentas operadas por Cooke, e não as novelas originais, mais de 20, datadas da década de 1960-1970): machista, violento, ladrão, assassino, etc.. Mesmo os pequenos laivos de “amizade máscula” que ele demonstra para com os seus colegas não será suficiente para o redimir face a uma moralidade humana societal. Mas as novelas policiais, já o havíamos dito, não são habitadas por flores que se cheirem… e há criações tão famosas com criminosos como personagens principais quanto com heróis e justiceiros. (Mais)

27 de março de 2017

Mensur. Rafael Coutinho (Companhia das Letras)

Depois de Cachalote, em colaboração com o escritor Daniel Galera, e O beijo adolescente, a solo, Rafael Coutinho traz um novo livro, num desses fôlegos que usualmente na circulação social da banda desenhada é um garante de uma conquista particular junto à atenção mediática mais normalizada. Para os seus leitores contínuos, não haverá necessidade de recorrer a esse tipo de musculatura e presença para demonstrar as suas capacidades expressivas, mas sempre se cria uma impressão. (Mais) 

25 de março de 2017

Bruma. Amanda Baeza (Chili Com Carne)

Quando falámos atempadamente do trabalho de Amanda Baeza, ainda no interior de uma lógica de pequenos fanzines ou edições independentes de uma circulação limitada, tínhamos perfeita noção de que mais tarde ou mais cedo a acumulação desses trabalhos emergiria num corpo maior. Se ainda não é o momento, talvez, de uma obra maior em si mesma, pelo menos a sua colação permitirá chegar a um público mais alargado e, de resto, tem sido essa a missão da colecção Mercantologia, da Chili Com Carne, nos últimos anos: a de re-oferecer alguns dos melhores gestos da comunidade zinesca a uma circulação mais lata.  (Mais)

24 de março de 2017

Colaboração no The Comics Alternative: Stardust Nation, de Deborah Levy e Andrzej Klimowski

O que acontece quando os nossos sistemas de empatia ultrapassam as fronteiras do ego para começarmos a identificar-nos perigosamente com o outro, derrubando as fronteiras, abrindo a nossa experiência própria à alheia? E o que ocorre se essas passagens se elaboram no centro de vários triângulos de dramas psico-familiares?

Uma colaboração entre a dramaturga britânica Deborah Levy num pequeno e simples conto que recorda alguma da programação clássica do Channel 4, e com os desenhos, desta feita coloridos e algo domados, de Andrezj Klimowski, de quem havíamos falado antes, explora essa mesma intriga.

O texto em que o lemos está no The Comics Alternative, aqui.

23 de março de 2017

Science Comics, vários títulos. AAVV (First Second)

A ideia de usar a banda desenhada como um meio de transmissão de informação, como meio de educação, não é de todo nova. Se englobarmos as imagens Quentin nessa equação, ancoramo-nos mesmo nas origens populares e na infantilização desta disciplina no século XIX. Mas poderíamos recuar ainda mais, se se pensasse em questões dos livros ilustrados medievais, das enciclopédias aos Musterbuchen, e a inúmeras práticas. Usualmente, esta utilização é vista com alguma desconfiança quando se parte de um ponto de vista estritamente estético, uma vez que os instrumentos empregues por estes exemplos não serão aqueles que mais preocupados estarão com a pesquisa da expressão, com a individualidade autoral, mas antes subsumem-se a noções tais como as da legibilidade, da inteligibilidade, da clareza de argumentação, etc. E muitas vezes acompanham-se de um qualquer enquadramento moralista que é bem distinto da visão mais progressiva. Não se pode, porém, negar que esse “uso”, não sendo artístico ou literário ou politicamente relevante, ainda assim conseguirá conquistar de quando em vez um qualquer grau de competência que a faz escapar de uma oferta desapaixonada. (Mais)

19 de março de 2017

Cadernos de Viagem. Anotações e experiências do Psiconauta. Laudo Ferreira (Devir Brasil)

Este livro é um gesto bem distinto no percurso do seu autor. Não se podendo assumir totalmente como um gesto autobiográfico, existem suficientes informações extratextuais – o prefácio de André Diniz, as notas de agradecimento do autor, a sua própria foto, etc. – que apontam para a sua construção enquanto bebendo dessa mesma experiência, lançando-a, portanto, naquilo que Serge Doubrovsky definiu como “autoficção”. Um jogo de tensões e espelhos que permite, a um só tempo, aproximar o que lemos de uma ideia, mesmo que vaga, de que corresponderão à experiência real do seu autor, mas ao mesmo tempo erguendo um intervalo suficientemente sólido para permitir alguma distância e segurança. Se a própria autobiografia não nos dá a nós direito de atravessar a linha que deve separar a arte do seu autor, a categoria da “autoficção” redobra esses esforço. (Mais)