24 de maio de 2017

Colaboração no The Comics Alternative: entrevista a Maaheen Ahmed.

Por ocasião da leitura de Openness of Comics. Generating Meaning within Flexible Structures, entrevistámos a sua autora, Maaheen Ahmed, para o site The Comics Alternative. A introdução contém algumas ideias breves em torno do volume, e seremos breves aqui na sua descrição.

Em termos conceptuais, este livro vem trazer um contributo substancial, empregando a noção de "abertura" que havia sido delineada e teorizada por Umberto Eco, para a banda desenhada. Essa noção tem sofrido alguns abusos ao longo dos anos em certas abordagens que a empregam e aplicam, ou como o próprio Eco diria, escolhos da sobreinterpretação. Se nos for possível apresentar uma ideia simplificada, trata-se tão-somente do leque de interpretações possíveis, mas igualmente as suas limitações configuradoras, ofertados por um texto determinado graças a toda uma série de elementos presentes nesse próprio texto. Esses elementos apresentar-se-ão de uma forma "incompleta", exigindo uma participação activa da parte do leitor-espectador, o qual, completando o texto, colocá-lo-á numa forma mais finalizada no seu próprio acto individual de leitura (observação, experiência, interpretação, etc.). Não se trata, de forma alguma, de poder "interpretar o que se quer", num quase total abandono à total e infinita relatividade, que levaria a um esvaziamento da obra, na verdade, mas tampouco uma libertação da materialidade dessa mesma obra. 

Isso levará então à distinção entre alguns textos mais fechados, menos flexíveis, que não oferecem espaço para uma completação da parte do leitor, e outras mais abertas. Neste ponto, caberá a quem argumentar o tentar descobrir como é que esses elementos funcionariam para que se pudesse cumprir tal distinção. Ora, é precisamente esse o papel que Ahmed cumpre no seu livro, analisando um corpus impressionante de banda desenhada, sobretudo no que diz respeito à sua diversidade de origens geográficas, anos de produção, géneros, estilos e até mesmo campos culturais. Encontraremos alguns "clássicos" europeus, como A Balada do Mar Salgado e a obra de Tardi, mas igualmente trabalhos de alguns dos autores contemporâneos finlandeses, como Marko Turunen, e títulos do mainstream de super-heróis norte-americanos. Esta diversidade é relativamente inédita em livros académicos em língua inglesa, revelando Ahmed como não apenas uma leitora transversal (muitos o são) mas uma investigadora interessada mais na operacionalidade do conceito do que na estruturação social e estratificada da banda desenhada em termos de produção (uma das suas limitações enquanto discurso cultural, inclusive académico). 

O livro poderá, aqui e ali, sofrer de uma repetição de estratégias, uma vez que apesar da divisão de capítulos por género (aventura, ficção científica, noir, etc.), o argumentário regressa sempre ao mesmo ponto. Todavia, fica muito claro o que a autora pretende deixar nas mentes dos seus leitores, de forma a que estes possam, a partir daí, re-empregar esta noção. As leituras de Ahmed são, as mais das vezes, curtas, mas incisivas e iluminadoras, apenas diminuídas por pequenos deslizes factuais ou a ausência de um quadro mais sólido das referências do seu contexto específico (um preço a pagar pela economia de uma tão incrível variedade).

Poderão ler a entrevista aqui.

23 de maio de 2017

Mazzeru. Jules Stromboni (Casterman)

De acordo com uma crença da cultura autóctone da Córsega, os mazzeri (pl., singular mazzeru) são pessoas que têm um dom profético da morte de alguém da sua comunidade, por via de sonhos, o que remete desde logo a práticas provavelmente muito antigas e irmanáveis com algumas das estruturações experienciais dos (vários tipos de) xamanismos. Nesses sonhos, as pessoas imaginam-se caçando animais da natureza circundante – javalis, raposas, coelhos, cabras, etc. -, acto que revelaria o rosto daquele que depois morrerá. Como se poderá imaginar, crendo nestas possibilidades, a pessoa a quem cabe esta tarefa é tão integrada quando apartada da “normalidade” da sua sociedade. (Mais) 

22 de maio de 2017

Aurora. Felipe Folgosi et al. (Instituto dos Quadradinhos)

É provável que estejamos a observar um novo fôlego nas relações entre a banda desenhada brasileira e portuguesa nos tempos correntes. Se durante algumas décadas essa relação passava tão somente pela distribuição comercial de publicações made in Brasil (de produções locais ou norte-americanas, sobretudo), neste momento as acções desdobram-se em exposições, autores publicados em Portugal ou títulos brasileiros com uma recepção particular por cá. Não se poderá falar ainda de um equilíbrio mútuo, mas essas relações estão com efeito fortalecidas. Aurora parece ser mais um dos elementos que contribui para esse cruzamento, dada a forma como a editora tem procurado estabelecer contacto com agentes nacionais, inclusive este mesmo espaço. (Mais) 

19 de maio de 2017

Três Histórias Desenhadas. José de Almada Negreiros (Assírio & Alvim)

Este pequeno livro de bolso reúne as três mais longas histórias de banda desenhada que Almada criou para o jornal O Sempre Fixe, todas elas datando do ano de 1926, também as maiores que ele alguma vez criou (se bem que não as esgotam). São os seus títulos “Era uma vez...”, “O sonho de Pechalim” e “A menina serpente”. A edição em causa é criada a partir dos desenhos originais “que sobreviveram presentes no espólio do artista”, nas palavras de Mariana Pinto dos Santos, na nota final, e descritos por Sara Afonso Ferreira, na introdução, como estando num “caderno composto pelo autor que colou, em cada folha, um desenho numerado”. São essas circunstâncias físicas e apartadas do seu contexto original que permitem às editoras publicar as histórias com um desenho por página, o que reformula, de certa maneira, estas narrativas. Publicado no quadro da magnífica exposição patente na Fundação Calouste Gulbenkian ao escrever estas linhas, com curadoria de Mariana Pinto dos Santos e Ana Vasconcelos, a sua circulação pode ser vista, até certo ponto, como uma maneira de dar corpo às extensões polivalentes e multidisciplinares desta “revisitação” da obra de Almada, assim como a uma concretização física das especificidades desta obra em particular. Ela emergiu para existir como objecto reproduzido, dado à estampa. (Mais)

17 de maio de 2017

20/MAIO: 17h: "Da Iconofagia", encontro com Hervé Di Rosa, na NLF.

Car@s amig@s, no próximo Sábado, dia 20 de Maio, na Nouvelle Librairie Française, em Lisboa, decorrerá uma conversa entre o artista Hervé Di Rosa, figura fundamental de um certo "regresso à figuração" nos anos 1980 em França, e cultor da mais diversa produção de imagens, e este vosso criado. 
Estará patente uma pequena mas importante mostra bibliográfica e gráfica do autor, e a conversa rondará sobretudo as fronteiras diluídas pela sua arte entre territórios que muitos ainda forçam a estar separados.
Apareçam.



15 de maio de 2017

Martha & Alan. Emmanuel Guibert (L’Association).

Esta autobiografia tecida por um outro é um projecto notável. Uma vez que havíamos dedicado algum tempo ao debate do que significa em termos culturais este gesto de Guibert, o de criar vários livros “d'aprés les souvenirs d'Alan Ingram Cope”, em que a voz está na primeira pessoa mas toda a sua estruturação e mediação é feita por um “terceiro” (uma das palavras associadas à ideia de “testemunha” em termos etimológicos), remetemos às notas sobre o último volume de La guerre d'Alan e L'enfance d'Alan para compreender o pasto de onde emerge este novo livro. Todavia, Martha & Alan é uma criatura bem distinta, por questões formais, textuais e estilísticas. (Mais) 

13 de maio de 2017

Sticks Angelica, Folk Hero. Michael DeForge (Koyama)

Pensamos que este é o projecto narrativo mais longo do autor, se bem que ele não se apresente com uma estrutura tipificada de livro. Afinal de contas, trata-se de uma tira semanal (irregular, porém) publicada online ao longo de quase um ano (e ainda disponível aqui). E se existe uma história central unificada e quase-coerente, ao mesmo tempo existem consideráveis desvios, ”excreções” ou alterações do ponto de vista que permitem expandir a perspectiva sobre as situações graças a outras personagens que não a protagonista, Sticks Angelica, ou desarrumar a organização temporal. Seja como for, a forma como a “história” é fechada, com uma prolepse já depois da morte da personagem, torna todo o material numa unidade fechada e coesa. (Mais)

12 de maio de 2017

Les têtards. Pascal Matthey (L’employé du moi)

Ao olharmos agora para o conjunto de alguns dos seus livros, compreendemos que Pascal Matthey tem na autobiografia uma das suas preocupações centrais. Este pequeno volume vem na sequência de Le verre de lait, Pascal est enfoncé, do qual falámos largamente aqui, de Du shimmy dans la vision, e de outras pequenas peças espalhadas pelas mais diversas antologias. Conforme o que já havíamos discutido a propósito desse livro anterior, a equação entre autobiografia, auto-ficção, desvio autobiográfico, versão, etc. é algo elástica, e é tão necessária na sua categorização ou análise quanto supérflua na sua leitura. Depende, portanto, da escala de atenção. (Mais) 

3 de maio de 2017

Heavy Metal, l'autre Métal Hurlant. Nicolas Labarre (Presses Universitaires de Bordeaux) & entrevista no The Comics Alternative.

Por ocasião da leitura deste livro, entrevistámos o seu autor, na nossa colaboração com The Comics Alternative. A entrevista está disponível aqui. Uma vez que nesse outro texto tecemos outras considerações e a própria entrevista sublinha aspectos do livro de Labarre, ficam aqui apenas alguns outros apontamentos complementares. O foco deste livro são os primeiros anos da revista norte-americana Heavy Metal (HM), no quadro da sua relação directa com a influente publicação francesa Métal Hurlant (MH). Com efeito, a HM nasceu como um projecto editorial afecto à plataforma que publicava a National Lampoon, até certo ponto uma herdeira mas igualmente desvio da Mad magazine, e que tinha como objectivo a divulgação desse material europeu nos Estados Unidos. Todavia, até hoje a HM é vista como uma versão deslavada, necessariamente inferior, da Métal Hurlant: menos experimental, menos influente, mais atreita a géneros de pouca intensidade criativa (ficção científica e high fantasy “clássicas”) e um claríssimo propósito machista, com as suas capas de pinups. Não é que essa imagem seja totalmente injusta, mas o grande objectivo de Labarre neste volume é corrigir a exatidão histórica das relações entre as revistas e uma mediascape mais alargada e, de certa forma, matizar o juízo sobre a revista americana, a qual criou “uma forma inédita nos Estados Unidos de negociar a articulação entre o underground e a banda desenhada de grande público” (207). (Mais)

30 de abril de 2017

RIP. François Henninger (auto-edição)

A presença da colagem como um dos possíveis instrumentos da banda desenhada não é de forma alguma uma novidade. Num artigo presentemente no prelo, num livro colectivo dedicado à abstração em banda desenhada, regressámos ao livro 978 de Pascal Matthey e à obra de diceindustries para tentar compreender não apenas esta “tendência” como também quais os contornos precisos da técnica e as suas potencialidades expressivas, políticas e de representação. Se podemos falar de Jack Kirby num campo estrito da banda desenhada, também poderíamos arrolar Max Ernst, Jess e Cátia Serrão em práticas mais expandidas e contaminadas da banda desenhada ou nas suas margens confundidas com as artes visuais. O alcance deste pequeno zine de François Henninger – com que nos havíamos cruzado em algumas publicações alternativas, e de quem lêramos Lutte des corps et chutes de classes – leva muitas das revisitações do material mortificado pela tesoura a atingir paroxismos maximais, que poderão devolver alguma urgência à banda desenhada que serviu de “matéria-prima”. (Mais) 

27 de abril de 2017

Três títulos da Avery Hill. AAVV.


Três passeios por paisagens inconstantes. A Avery Hill é uma recente e pequena editora londrina que parece disposta a fazer apostas numa certa diversidade de linguagens da banda desenhada, que tanto poderá compreender gestos algo experimentais como outras abordagens mais convencionais, mas ainda assim informadas por sensibilidades e estilos contemporâneos, abertos a um diálogo entre vários géneros, e sempre sob o signo da tranquilidade. Dos que nos foi dado a ler, vimos precisamente como constante a exploração dos mais distintos mundos ficcionais, que podem compreender a ficção científica, a fantasia, o fantástico, o mundano e até o horror, mas sempre numa pausada e certeira caminhada. Os três livros que trazemos aqui à colação, de uma forma ou outra, dão-nos a impressão de estarem unidos por “passeios” idênticos, sejam eles mais próximos da ficção ou da autobiografia, e procurando vários graus de experimentação gráfica, narrativa ou de composição. (Mais) 

24 de abril de 2017

Colaboração no The Comics Alternative: It's No Longer I That Liveth, Francisco Sousa Lobo.

O último livro de Francisco Sousa Lobo inscreve-se de uma maneira intensa no seu projecto contínuo de auto-ficção. As afinidades com aquilo a que chamámos o "Poema Contínuo" de Baudoin é por demais assinalado na obra de Lobo, um pouco como, se bem que com instrumentos distintos, dos de Marco Mendes no seu Diário rasgado. Este último título traz para primeiro plano a relação complexa coma fé, a sexualidade e a difícil comunicação com os outros seres humanos, no cadinho mais tumultuoso da vida de uma pessoa na sociedade ocidental: a adolescência. Menos do que um Bildungsroman, It's No Longer That I Liveth é uma demolição da personalidade, uma mortificação, para nela tentar ver se existe alguma fagulha ainda sobrevivente... O texto maior sobre este livro foi escrito em inglês para The Comics Alternative, deixando aqui o link directo.

15 de abril de 2017

Gaïa. Thierry Cheyrol (La Cinquième Couche)

Se tivermos em conta alguns dos exemplos incluídos em Abstract Comics, e experiências quer narrativas como algumas das peças incluídas em A Graphic  Cosmogony ou mais experimentais como 978, apercebermo-nos-emos de que tem surgido uma espécie de tendência em explorar formas de representação das transformações e devires em tempos dilatados, através das potencialidades expressivas da banda desenhada, para criar quadros de compreensão à escala humana. Noutras palavras, transformar a banda desenhada numa espécie de filtro, gráfico neste caso, que permita “dar a ver” fenómenos usualmente for do campo da visibilidade ou experiência humanas, de uma forma a poder criar um qualquer grau de relacionabilidade. (Mais) 

9 de abril de 2017

Torrente de ilustração (várias editoras).


Permitam-nos iniciar este texto com uma nota pessoal e um pedido de desculpas. A nota pessoal prende-se com uma justificação de termos estado “em silêncio” em relação a toda uma série de livros ilustrados para a infância que têm sido publicados nos últimos meses em Portugal, não por falta de atenção e menos ainda por falta de interesse, mas devido a vários compromissos profissionais e académicos que nos têm impedido de poder fazer uma recepção crítica mais atempada, individualizada e específica a cada um desses projectos. O pedido de desculpas deve-se às editoras, que têm sido generosas em deixar-nos a par das suas novidades e apostas editoriais, que não acarreta de forma alguma a obrigatoriedade de escrever sobre elas mas parte de um pressuposto de atenção, dada a (ainda) desequilibrada recepção crítica desta produção nos meios de comunicação mais massificados, e mesmo nos mais especializados reduzidos muitas vezes a discursos impressionistas. Porém, esse pedido de desculpas deve ainda dizer respeito ao presente texto, pois ao abordar mais de trinta títulos de um só fôlego, é mais do que natural que incorramos numa profunda injustiça, já que nem poderemos entrar numa leitura formal pormenorizada que cada título mereceria nem poderemos dar conta de um juízo de valor mais argumentado e claro. (Mais)

3 de abril de 2017

Trump Card. Rudolfo (Chili Com Carne/Ruru Comix)

Já em ocasiões anteriores havíamos falado dos projectos do artista conhecido por Rudolfo, inclusive aqueles em que a personagem Musclechoo aparecia nas suas estranhas aventuras. “Estranhas” aqui deverá ser lido como sinónimo de híbrido, não apenas no que o seu nome revela, mas igualmente em termos de géneros de banda desenhada, que não escondem as suas clássicas características, que o autor revisita, misturando-os. (Mais) 

1 de abril de 2017

Silent Agitators. Kent Worcester (auto-edição)

Já nos havíamos cruzado neste espaço com Worcester por ocasião do volume por si co-editados, AComics Studies Reader, se bem que ele tem trabalhado noutros projectos associados à banda desenhada (o volume dedicado a Peter Kuper na colecção Conversations da UPM, um The Superhero Reader, etc.). Este título é uma auto-edição de toda uma série de pequenos artigos, quase uma trintena de entradas, que foram publicadas na New Politics (que é publicada duas vezes por ano) entre 2003 e 2016. Esta secção, intitulada “Word and Pictures”, permitiu a Worcester uma exploração inclusiva do tipo de trabalhos abordados, mas sempre sob uma mesma perspectiva. Como explica na introdução, com vista a uma certa “correcção” em relação ao tipo de objectos maioritariamente estudados na academia – o círculo dos Estudos de Banda Desenhada, para o qual ele próprio tem contribuído, afinal -, pretende aqui focar-se sobretudo em trabalhos de natureza política. Combativa, directa, endereçada, sejam caricaturas, cartoons ou banda desenhada (ficcional ou não), toda esta produção visa, como implica o título do livrinho, “agitar”. (Mais) 

31 de março de 2017

Comic Strip. Gerard Richter (Walther König)

Apesar deste não ser um espaço de novidades, gostamos, dentro da medida do possível, de ir seguindo o ritmo das publicações mais recentes, alimentando uma atenção particular para com as novas tendências das linguagens que nos interessam. Este livro foi publicado em 2014, mas tendo-nos escapado entretanto, e graças à chamada de atenção de Domingos Isabelinho, esta é uma daquelas oportunidades em que o “atraso” se justifica mais que o silêncio. Até porque a importância e valor deste livro vem contribuir para os temas e questões que mais têm alimentado o nosso trabalho pessoal, pesquisas académicas e preocupações docentes: a linha diáfana entre os ditos “mundo da arte” e a “banda desenhada”, e a maneira como as respirações de um a outra são bem mais complexas do que usualmente se retrata e, mesmo ao contrário da vontade e opinião dos guardiões das fronteiras estéticas, a transmissão e influência é bem mais dual e completa do que se costuma mostrar. (Mais)

30 de março de 2017

La bande dessinée au tournant. Thierry Groensteen (Les Impressions Nouvelles)

Estando nós particularmente “atrasados” em dar conta de dezenas de novos livros teóricos, académicos e ensaísticos sobre a banda desenhada e outras disciplinas, dado o nosso próprio percurso de investigação, mas aos quais esperamos retornar em breve, mesmo que sumariamente, tentemos porém regressar de forma sucinta e tímida, com este último opúsculo de Groensteen. (Mais)

1 de Abril: Seminário Banda Desenhada e Pensamento Político: Sessão 5

O Seminário iniciado em finais de Novembro chega à sua quinta sessão, num ambiente bem diferente. Desta feita, encontrar-nos-emos na galeria Zaratan, espaço privilegiado de desassossego e interrogações estéticas de todos os azimutes, e os convidados são Marcos Farrajota, no seu papel de editor da Chili Com Carne e autor de bandas desenhadas de reportagem cultural, e José Smith Vargas, autor de banda desenhada que se tem "epecializado", se assim se pode dizer, em reportagens em torno de questões políticas, sobretudo na secção "Mapa Borrado" do jornal Mapa

A discussão rondará o tema da "cidade e da multidão", tema particularmente baudelariano, mas esperamos que a nossa flânerie nos leve às questões que neste momento mais urgem na cidade de Lisboa, em Portugal ou mais além, num esforço de politizar a cidadania, e com a banda desenhada.

29 de março de 2017

Parker, vols. 2 e 3. Richard Stark e Darwyn Cooke (Devir)

Uma vez que já havíamos falado alargadamente da estrutura literária e da forma dialogante entre a adaptação em banda desenhada de Cooke e os romances de Stark, passaremos à leitura imediata dos livros em si. Ficando ainda a nota de homenagem ao artista, cuja morte foi uma surpresa triste há tempo recente.

Cada um dos volumes de Parker lê-se com efeito como uma novela centrando-se nos “trabalhos” a que o criminoso se entrega. É curioso como apesar de o acompanharmos e termos mesmo direito de ir compreendendo alguns dos mecanismos psicológicos que o movem, e o tipo de “ética”, se assim se pode dizer, que pautam o seu profissionalismo, há sempre um limite curto desse mesmo conhecimento. Parker é ainda um homem misterioso, silencioso, que não se deixa endrominar por explicações fáceis. Todavia, essa distância com o leitor é também aquilo que impede uma qualquer empatia ou simpatia total por uma personagem que não esconde de forma alguma ser um sociopata (mesmo que isso seja fruto das alterações mais violentas operadas por Cooke, e não as novelas originais, mais de 20, datadas da década de 1960-1970): machista, violento, ladrão, assassino, etc.. Mesmo os pequenos laivos de “amizade máscula” que ele demonstra para com os seus colegas não será suficiente para o redimir face a uma moralidade humana societal. Mas as novelas policiais, já o havíamos dito, não são habitadas por flores que se cheirem… e há criações tão famosas com criminosos como personagens principais quanto com heróis e justiceiros. (Mais)

27 de março de 2017

Mensur. Rafael Coutinho (Companhia das Letras)

Depois de Cachalote, em colaboração com o escritor Daniel Galera, e O beijo adolescente, a solo, Rafael Coutinho traz um novo livro, num desses fôlegos que usualmente na circulação social da banda desenhada é um garante de uma conquista particular junto à atenção mediática mais normalizada. Para os seus leitores contínuos, não haverá necessidade de recorrer a esse tipo de musculatura e presença para demonstrar as suas capacidades expressivas, mas sempre se cria uma impressão. (Mais) 

25 de março de 2017

Bruma. Amanda Baeza (Chili Com Carne)

Quando falámos atempadamente do trabalho de Amanda Baeza, ainda no interior de uma lógica de pequenos fanzines ou edições independentes de uma circulação limitada, tínhamos perfeita noção de que mais tarde ou mais cedo a acumulação desses trabalhos emergiria num corpo maior. Se ainda não é o momento, talvez, de uma obra maior em si mesma, pelo menos a sua colação permitirá chegar a um público mais alargado e, de resto, tem sido essa a missão da colecção Mercantologia, da Chili Com Carne, nos últimos anos: a de re-oferecer alguns dos melhores gestos da comunidade zinesca a uma circulação mais lata.  (Mais)

24 de março de 2017

Colaboração no The Comics Alternative: Stardust Nation, de Deborah Levy e Andrzej Klimowski

O que acontece quando os nossos sistemas de empatia ultrapassam as fronteiras do ego para começarmos a identificar-nos perigosamente com o outro, derrubando as fronteiras, abrindo a nossa experiência própria à alheia? E o que ocorre se essas passagens se elaboram no centro de vários triângulos de dramas psico-familiares?

Uma colaboração entre a dramaturga britânica Deborah Levy num pequeno e simples conto que recorda alguma da programação clássica do Channel 4, e com os desenhos, desta feita coloridos e algo domados, de Andrezj Klimowski, de quem havíamos falado antes, explora essa mesma intriga.

O texto em que o lemos está no The Comics Alternative, aqui.

23 de março de 2017

Science Comics, vários títulos. AAVV (First Second)

A ideia de usar a banda desenhada como um meio de transmissão de informação, como meio de educação, não é de todo nova. Se englobarmos as imagens Quentin nessa equação, ancoramo-nos mesmo nas origens populares e na infantilização desta disciplina no século XIX. Mas poderíamos recuar ainda mais, se se pensasse em questões dos livros ilustrados medievais, das enciclopédias aos Musterbuchen, e a inúmeras práticas. Usualmente, esta utilização é vista com alguma desconfiança quando se parte de um ponto de vista estritamente estético, uma vez que os instrumentos empregues por estes exemplos não serão aqueles que mais preocupados estarão com a pesquisa da expressão, com a individualidade autoral, mas antes subsumem-se a noções tais como as da legibilidade, da inteligibilidade, da clareza de argumentação, etc. E muitas vezes acompanham-se de um qualquer enquadramento moralista que é bem distinto da visão mais progressiva. Não se pode, porém, negar que esse “uso”, não sendo artístico ou literário ou politicamente relevante, ainda assim conseguirá conquistar de quando em vez um qualquer grau de competência que a faz escapar de uma oferta desapaixonada. (Mais)

19 de março de 2017

Cadernos de Viagem. Anotações e experiências do Psiconauta. Laudo Ferreira (Devir Brasil)

Este livro é um gesto bem distinto no percurso do seu autor. Não se podendo assumir totalmente como um gesto autobiográfico, existem suficientes informações extratextuais – o prefácio de André Diniz, as notas de agradecimento do autor, a sua própria foto, etc. – que apontam para a sua construção enquanto bebendo dessa mesma experiência, lançando-a, portanto, naquilo que Serge Doubrovsky definiu como “autoficção”. Um jogo de tensões e espelhos que permite, a um só tempo, aproximar o que lemos de uma ideia, mesmo que vaga, de que corresponderão à experiência real do seu autor, mas ao mesmo tempo erguendo um intervalo suficientemente sólido para permitir alguma distância e segurança. Se a própria autobiografia não nos dá a nós direito de atravessar a linha que deve separar a arte do seu autor, a categoria da “autoficção” redobra esses esforço. (Mais) 

13 de março de 2017

Unfinished Mandarin. Gonçalo Pena (Mousse)

Segundo volume de recolha de desenhos avulsos de Gonçalo Pena, seguem-se aqui as mesmas aporias do anterior, em que a aparente ausência de um princípio organizativo ou classificativo dos desenhos obrigará os leitores a criarem eles mesmos as formas de associação interna. Pela sua existência somente, todavia, o volume convida desde logo à consideração da indisciplina do desenho como passível de ser repensada enquanto modo de estabelecer um modo prático do pensamento. Franqueando talvez de forma perigosa algumas questões da filosofia da arte, com as quais seguramente Pena se digladia, é possível que estejamos a incorrer numa interpretação vulgar de Hegel, ao crer na arte como ideia demonstrável, mesmo que apenas enquanto aparência. Nesse caso então, o “mandarim inacabado”, rosto pincelado com uma dezena de traços, à la René Gruau, aponta de imediato às ideias apresentadas ao longo destas centenas de páginas, todas elas sempre com uma sombra de ilusão: “inacabado” porquê, afinal? Isto permitir-nos-ia encetar uma discussão sobre a incompletude como forma moderna do desenho (sob os auspícios de um estudo sobre os "interrupted sketches" de Joeph Pennell), mas ficaremos por uma abordagem mais superficial. (Mais)

6 de março de 2017

Le rapport de Brodeck. Manu Larcenet.

Nas suas Teses sobre a Filosofia da História, Walter Benjamin escreveu “Nunca houve um documento da civilização que não o fosse simultaneamente da barbárie”. Esta ideia complexa associa-se à ideia materialista do filósofo alemão e mesmo ao trabalho da sua crítica, que implicava jamais perder o rasto ao valor que as coisas tinham pela passagem táctil, tangível, sofrível do ser humano, e não olhá-las somente pelo seu suposto valor “eterno”, “universal”, “estético”. Le rapport de Brodeck é todo ele tecido em torno do que o título indica, um documento escrito que quer dar conta de um evento mas, na sua tessitura, desvela em si mesmo a barbárie que subjaz a cada gesto humano. (Mais) 

23 de fevereiro de 2017

Sutrama. Daniel Lima (kuš!)

Uma das formas de respondermos a este livro seria analisar quais são os pontos de desenvolvimento aproveitados por Daniel Lima no seu próprio diálogo com o filme de Robert Bresson, Le diable probablement (1977), do qual aproveitou algumas cenas para a construção deste diálogo entre duas personagens que preenchem as páginas. Uma pesquisa que superficialmente parece ser a de um suicido ou assassinato banal (?) desemboca numa análise lenta, dura e pesada sobre o estado de espírito de uma sociedade desencantada, o que poderia servir de, talvez, descrição de toda a cinematografia (ou será antes a de uma pesquisa que tenta descobrir ainda os últimos laivos de encantamento que nela sobrevivem?) do autor. Lima, todavia, transforma essa ocasião para reconstruir uma espécie de ambiente artificial e mágico no qual a distância entre os corpos (dos “modelos” e não “actores”, para seguir a nomenclatura de Bresson) dos protagonistas e as metamorfoses dos objectos e espaços em torno tem de ser compreendida menos como momentos para criar redes simbólicas, passíveis de uma ulterior apresentação de significados do que uma plataforma para sensações ambivalentes e ainda mais distanciadoras da própria matéria de expressão. (Mais)

21 de fevereiro de 2017

Três títulos da colecção Écritures (Casterman)


Como manda a lei das editoras comerciais, chegará um momento em que se faz não apenas uma reestruturação gráfica e formal das suas colecções, como um balanço interno da sua produção. A colecção Écritures foi alvo precisamente de um redesign, em que as capas passam a ser tratadas a preto com uma segunda cor e os títulos a dourado, criando uma coerência gráfica distinta daquela verificada até agora. Não só foram relançados alguns títulos antigos neste packaging como os novos seguem agora esta linha. Além disso, há um lançamento e abertura de vários novos gestos criativos que estendem os supostos objectivos originais da colecção. Não é que não houvesse colaborações anteriormente, mas o lançamento de La cire moderne, colaboração entre o escritor Vincent Cuvellier e o artista Max Radiguès, e Je viens de m'échapper du ciel, adaptação das novelas policiais coordenadas de Carlos Salem por Laureline Mattiussi parecem confirmar a insistência desse tipo de possibilidades “literárias”. Adicionalmente, o lançamento de Salles d'attente, de Charles Masson, que recupera Soupe Froide e outros relatos, mostra a possibilidade dos tais balanços internos. (Mais)

9 de fevereiro de 2017

15 de Fevereiro: Seminário Banda Desenhada e Pensamento Político: Sessão 4

O Seminário indicado antes continua. 

Estão convidados a aparecer e participar na próxima (4ª) sessão, desta vez sob a forma de um pequeno debate com dois artistas de banda desenhada contemporânea portuguesa, Marco Mendes (Diário rasgado) e Tiago Baptista (Fábricas, baldios, etc.). 

O tema-chave é o "desencanto" e tentaremos falar em torno de questões sobre a representação social que emerge das obras destes dois artistas, o alcance da leitura política que elas permitem, e em que medida é que funcionam os afectos na banda desenhada como espelho da situação actual. 

Apareçam!

3 de fevereiro de 2017

A minha casa não tem dentro. António Jorge Gonçalves (Abysmo)

No final do volume, o autor explica como o título deste livro é retirado de uma “estiga”, que neste caso se refere a uma forma ritualística e lúdica de Luanda de criar narrativas trocadas com interlocutores, com direito a resposta. Usualmente, e mesmo em Portugal, são jogos de insultos mútuos, com ataques e ripostas, uma espécie de rap battle, mas onde o objectivo é o divertimento de todos (às custas dos que se propõem a jogar). É portanto uma forma de exposição, franca, directa, bruta, e em grande medida é isso o que se passa neste livro. Mas é no início que está a nota que explica a razão de ser deste projecto. António Jorge Gonçalves teve um acidente gravíssimo médico que o colocou à beira da morte, ou mesmo para além dessa hipotética fronteira (ele escreve “morri e regressei à vida”). E este acto criativo é uma resposta. Se essa reposta é à aproximação dessa fronteira, à sua travessia, ou ao seu regresso, não sabemos. Sabemos é que deve ser lido. (Mais) 

23 de janeiro de 2017

Groenland Vertigo. Hervé Tanquerelle (Casterman)

O regresso de Tintin. Correndo o risco de nos repetirmos, uma das expressões mais curiosas de escutar em relação à exposição e regular “consumo” da banda desenhada é aquela empregue por leitores adultos de que “cresceram com” determinado título ou género ou autor ou personagem. Depreende-se de que o crescimento é aquele dos interlocutores, em termos físicos, psicológicos, emocionais, uma vez que essa realidade a que se retorna, da banda desenhada, espera-se que se mantenha a mesma, com algum nível de conforto e de confirmação da nostalgia.  Não nos abstemos, como afirmámos a propósito de O testamento de William S., de nos integrarmos pessoalmente em experiências dessa natureza, que ignoram os avisos da lógica mental para acederem de imediato aos centros nevrálgicos da nostalgia e das respostas automáticas de prazeres infantis. Todavia, é o esforço e exigência da educação e da verdadeira maturidade que nos deve fazer procurar por outros domínios da banda desenhada, que com efeito cresceram com os tempos, e dessa forma ora trazem modo mais complexos de narrativas, ora aumentam os graus de referencialidade e integração cultural, ora se estruturam com formas visuais e compositivas mais consentâneas com uma sofisticação próxima da de outras áreas artísticas, e por aí fora. (Mais)

20 de janeiro de 2017

Colaboração no du9. My Ogre Book, Shadow Theater, Midnight, de Marcel Broodthaers.

Como tem sido hábito, transmito aqui a indicação de que está disponível um artigo, na du9.org, sobre uma belíssima edição da Siglio que reúne três obras distintas de Marcel Broodthaers em tradução inglesa: dois livros de poesia e uma colecção de imagens, matérias transformadas num novo projecto que sendo antigo, nunca existira nesta forma. 

Broodthaers é uma referência fulcral da cultura belga moderna, e as suas pesquisas multímodas, acima de todas aquelas que auscultam as fronteiras porosas entre as imagens e a literatura, deveriam ser (e são-no) um modelo para aqueles que trilham o mesmo caminho.

A questão central que nos ocupa é menos a crítica da poesia ou dos projectos artísticos do artista, o que nos escaparia, do que este novo "agenciamento" proporcionado por um novo objecto-livro, que reapresenta um novo fôlego e vida a essas mesmas produções.

Como sempre, a tradução para francês esteve a cargo de Benoît Crucifix, a quem queremos deixar os mais vivos agradecimentos. Merci bien pour ta patience et ton amitié! 0

Link directo, aqui.

13 de janeiro de 2017

Pandora # 2. AAVV (Casterman)


Se em Portugal estamos a seco há décadas em relação a títulos regulares de banda desenhada cujas narrativas sejam publicadas em capítulos, ou que mesmo antologias de histórias curtas saiam somente de quando em vez e usualmente como gestos únicos ou limitados, o mesmo não pode ser dito de outros mercados mais consistentes financeiramente. Esta é apenas uma constatação de factos, não um juízo de valor, já que se tentam várias vezes reatar essas chamas por cá, com fortunas díspares mas quase sempre sol de pouca dura (mas trabalhos em si de qualidade). Em França, por exemplo, ainda há vários títulos que garantem a chamada “pré-publicação”, um pouco para todos os gostos, desde o mais mainstream (a Bodoï, depois transformada em webmag, a Lanfeust) às mais clássicas (Spirou) até mesmo às que servem o círculo independente (a Lapin, agora transformada em jornal). Mesmo assim, no panorama actual mais empobrecido na abordagem convencional – já que em termos de “reportagem em bd” a existência da Révue XXI e La Révue Dessinée apenas nos fará sonhar num mundo mais perfeito -, o surgimento de um título como Pandora encaixa-se num contexto de maior diversidade, mas terá certamente o seu papel. (Mais) 

8 de janeiro de 2017

O testamento de William S. Yves Sente e André Juillard (Asa)

Quando falámos de Sous le soleil du minuit, aventámos a toda essa prática contemporânea no interior do contexto específico da banda desenhada europeia, pautada sobretudo pela criação de “autor”, ou pelo menos de “personagens de um autor”), a que a crítica Jessie Bi havia chamado de profaçon, que a autora, especularmente, descreve recorrendo a outro conceito por ela assinado, a de uma plagionomia legítima. Quer dizer, de uma forma simples, a maneira como o “mercado”, de forma legítima, autoriza que uma obra, um estilo, uma voz, procure ser continuada por outros autores que não o original. Para nos atermos à história da arte ocidental, uma vez que outras estruturas civilizacionais e culturais poderão seguir outros passos bem distintos, e até ao longo da história práticas houve que sustentavam a “imitação do mestre”, aquilo que seria considerado um mero plágio, imitação, derivação, pálida sombra, etc. de um ponto originário na literatura, cinema, ou artes visuais, na banda desenhada é vista como uma “nova vida” para as “queridas personagens”. Nem sequer estamos a falar de pastiches, que são exercícios legítimos e sempre de uma distanciação crítica em relação ao original, provocando sempre uma noção de comparação automática. Mas de uma verdadeira “continuidade”, em que, apesar de tudo, se particulariza a “biografia ficcional” das personagens como se fosse verdadeira. (Mais)

6 de janeiro de 2017

Repeteco. Bryan Lee O'Malley (Companhia das Letras)

Depois do sucesso estrondoso, a nível comercial mas também crítico, de Scott Pilgrim (para o qual terá contribuído sobremaneira a adaptação cinematográfica exemplar de Edgar Wright, tendo nós falado de ambos anteriormente), O'Malley parece ter querido trabalhar temas um pouco mais graves, sem abdicar porém do seu registo visual de “mangá-via-Ocidente”, numa espécie de linha clara, aqui ainda mais sublinhada pelo uso de cores planas para a maior parte das superfícies, gradientes nos momentos certos, linhas coloridas para cenas específicas, e um equilíbrio exímio entre a abordagem estilizada, os momentos chibi, e os pormenores realistas e pormenorizados. Seconds, ou na tradução aqui lida, Repeteco, reitera um tema recorrente do autor – a personagem ligeiramente deslocada de uma certa ideia de “normalidade”, mesmo que dentro de um contexto onde todos afirmam diferenças dessa suposta “norma”, a qual acaba muito diluída. No caso, trata-se de uma jovem chefe de cozinha, Katie, embrulhada numa complexa encruzilhada da abertura do seu novo restaurante, as suas relações profissionais e amorosas e, o que perfaz o cerne da intriga, o seu encontro com uma dimensão fantástica. Nesse “crescimento”, quase faria pensar em Jeff Smith, mas onde Bone é uma obra quase perfeita e RASL menos conseguida, por ser um salto que se move entre géneros mas não entre concentração dos instrumentos, a relação entre Scott Pilgrim e Seconds é a de um desabrochar de uma linguagem interna. (Mais) 

5 de janeiro de 2017

28 de Janeiro: Seminário Banda Desenhada e Pensamento Político: Sessão 3

Na continuidade do Seminário que antes enunciáramos, temos o gosto de vos convidar a aparecer e participar na próxima (3ª) sessão, desta vez dedicada à banda desenhada de super-heróis e o modo como elas respondem à questão das utopias, distopias e eutopias, assim como os contornos éticos pelos quais, historicamente, se balizaram, ultrapassaram, desrespeitaram ou tentaram suportar. 

Desta forma, o convidado é José Hartvig de Freitas, sobretudo na sua qualidade de editor (mas também promotor, tradutor, etc.) de alguns dos títulos de super-heróis de maior peso que têm sido publicados entre nós recentemente, como são os casos da "trilogia desconstrutiva" de Alan Moore et al., Miracleman, V for Vendetta e Watchmen. Participa ainda o investigador e coordenador do Seminário, Helder Mendes e este vosso criado como moderador.

Apareçam!