31 de Agosto de 2012

Get Jiro! Anthony Bourdain, Joel Rose e Langoon Foss (Vertigo)

Não é totalmente despropositado ver neste livro mais uma oportunidade de negócio, um aproveitamento de tendências comerciais contemporâneas, do que um verdadeiro gesto de vontade autoral, algo que se consubstanciasse numa energia expressiva necessária. Afinal de contas, o nome que encima a capa do livro é o do famoso chef Bourdain, destacado dos demais companheiros da equipa criativa (o co-escritor Joel Rose e o artista Langoon Foss), aproveitando a fama e o peso mediático deste. Tratar-se-á, portanto, de uma mera estratégia da parte da Vertigo em diversificar o seu público-base, tentando conquistar franjas até agora mais ou menos alheias à banda desenhada, ou pelo contrário, uma tentativa de fazer com que a banda desenhada se diversifique em direcção a novas preocupações temáticas? É possível. Mas a leitura de Get Jiro! também revelará a própria consciência que o(s) autor(es) têm dessa situação, e exploram-na com alguma distância irónica.
Será fruto de exasperação para alguns a crescente moda da culinária, nas suas mais diversas prestações e escolas, um pouco por todos os circuitos mediáticos. Nunca houve tantos programas televisivos sobre cozinha, documentários sobre cozinhas do mundo, concursos, livros, a proliferação de termos até há pouco tempo apenas conhecidos pelos especialistas, e a própria disponibilização e variedade de instrumentos, ingredientes e cursos breves. Pessoalmente, apesar de considerarmos quase todos os concursos televisivos abjectos e conducentes à indignidade humana, pela forma redutora como transformam tudo em caminhos unidireccionais, unilaterais, competitivos (e não colaborativos), etc., consideramos que a aprendizagem da culinária pode, na sua melhor dimensão, ser uma forma de aprendizagem cultural, um entendimento de tradições locais e autóctones, mas também do outro, e ainda uma indagação de si-mesmo, procurando-se ser-se mais atento, ou passe o pleonasmo, sensível às sensações, etc. E, essa virtude inigualável, o fomento da comensalidade. No fundo, algo bem mais nobre do que os princípios usualmente associados à dependência nacional do futebol e suas novelas, da vida privada e mesquinha dos “famosos-por-substantivo” (isto é, aqueles que são famosos por serem famosos), ou a cada vez mais humanamente esquálida “classe” política. Dito isto, compreendemos que esta cultura da cozinha nova se pode tornar igualmente um factor de diferenciação classista – tirando partido de toda aquela metáfora fundada na estética de Baumgarten, no seu sentido primário associado à sensualidade do corpo antes de atingir as artes visuais, do “gosto” - e, tal como o discurso em torno dos vinhos, rapidamente se podem tornar elementos de um cachet mais falsificado que genuíno. Poderes fátuos, portanto.
Get Jiro! parece estar consciente de todas estas dimensões sociais. A narrativa passa-se numa futura e hipotética Los Angeles. Mas em vez da sombria e pós-tecnologica L.A. de Blade Runner, o que encontramos é uma cidade não só socialmente estratificada como repartida em duas facções, como se se tratassem de territórios controlados por barões da droga. No caso, porém, a divisão é feita entre dois grandes líderes da culinária: o chef Bob, da Global Affiliates, associado à cozinha internacional, molecular, haute/nouvelle cuisine, etc., cheia dos salamaleques de especificidades culturais, novas tecnologias, iguarias raras, mesmo que isso signifique o mau-trato dos animais, a sobreprodução, a exploração de economias menores, ou a absurda comercialização transglobal de certos produtos (o lema dos restaurantes é, aliás, “As melhores coisas/por quaisquer meios”), e a chef Rose, ligados aos movimentos vegan e a toda uma família alargada de preocupações ecológicas, políticas e económicas, sobretudo dedicados a uma produção e consumo localizados. O maniqueísmo é por demais óbvio, e o jovem chef de sushi, acabado de chegar à cidade e com um passado misterioso que jamais é revelado, não só se encontrará no meio dessas batalhas como será ele mesmo objecto cobiçado pelas duas “facções”. De certa forma, seria imaginar que, tal como em Battle Royale a rede escolar poderia seguir regras instituídas por certos reality shows (Survival, et.), teríamos no actual Masterchef o princípio de organização social por vir. Não seria despropositado ver nesta tendência analogias com certos movimentos musicais (o rock, o punk, e a que L.A. está aliada historicamente) associados a certas ideias de revolta social (ou de um tipo de expressão de revolta), mas as modas de cozinha não são usualmente rebeldes, sendo antes instrumentos desde logo de uma qualquer inscrição estratificada.
É impossível não aceitar que a influência quase directa, pelo menos do núcleo da diegese, venha do documentário Jiro Dreams of Sushi (real. David Gelb, 2011), sobre o chef de um restaurante japonês único, detentor de 3 estrelas Michelin, Jiro Ono. Esse é um documentário simples, algo delimitado, mas cujo propósito é construir o retrato de um homem que dedicou toda a sua vida, e procura seguir regras de rigor, exigência e excelência em tudo o que faz, desde a limpeza do estabelecimento à suprema qualidade dos produtos empregues, do exigente treino de todos os empregados – durante anos e anos a fio – aos pormenores ritualísticos da confecção do sushi em frente aos clientes. A visualização dos elementos que compõem o documentário iluminarão sobremaneira as opções narrativas, e pormenores anedóticos, do livro. Por exemplo, o restaurante do Jiro real fica na estação de metro de Ginza, e tem apenas 10 lugares, o que à partida nos faria descrer da sua qualidade e fama. Mas a marcação de um lugar, e o seu pagamento, impede logo que qualquer cliente possa “entrar desprevenido”. Esta diferenciação das mais usuais expectativas de restaurantes de luxo espelha-se neste livro pela localização do restaurante do Jiro ficcional num banal complexo de pequenos restaurantes à beira da estrada nos arredores da futura Los Angeles, fora do seu “círculo principal” (controlado por barreiras de controlo, como impedimento social e económico). A tensão palpável que se nota no documentário, ao termos um mestre desta culinária a dar os últimos mas decisivos toques no que nos é servido a escassos centímetros do nariz, é transformada depois no livro numa tensão num grau maior, precisamente pelo filtro dos filmes de gangsters, mormente pela romanticização pós-moderna e ultraviolenta à Tarantino. Questões de etiqueta e identidade do sushi (não colocar molho de soja no arroz, não deixar os pauzinhos espetados nas malgas, não pedir “California rolls”, etc.) levam a reacções de atrocidades guerreiras. Por outro lado, o humor inerente a todos os exageros verificados na história, e o tema, enfim, também são reminiscentes ou pelo menos comparáveis ao inefável “ramen western” Tampopo (real. Juzo Itami, 1985), na sua busca dos “ramens perfeitos” e os inúmeros sketches em torno da cultura gastronómica. Todos aqueles discursos tipificados e ilusórios de “honra”, “códigos”, à la samurai, etc., que pululam em torno dos mitos nipónicos, encontram-se aqui exacerbados, mesmo que entrosados noutros géneros.
Aquela disputa entre os defensores da cozinha internacional e os vegans não deixa de ser algo desequilibrada. Apesar de ambas as escolas serem retratadas como exageradas e hipócritas, parece-nos que, no final de contas, a primeira é vista com maior simpatia (afinal de contas, Bourdain pertence mais a essa escola do que a outra), e a segunda associada a toda uma panóplia de movimentos diversos (cita-se mesmo os Occupy, por exemplo), por sua vez vistos como tendências passageiras, hipócritas, iludidas e inconsistentes. Contra o exagero desses dois pólos, a figura de Jiro surge como uma espécie de paladino (sushi samurai é o descritivo repetido nas recensões) a uma maior diversidade e liberdade de escolha, e que encabeçará uma revolta de produtores menores, cozinheiros de menor escala, etc., desde um velhote vietnamita de sopas pho a um chef francês tradicional, à escala familiar (e vítima do feudo).
É difícil compreender a quem pertencerá o trabalho de ideia original e argumento, mas pela distribuição e ênfase dos nomes, estaremos em crer que as ideias serão de Bourdain e a planificação, pelo menos em parte, serão de Rose, com basta experiência, sobretudo editorial, neste campo. Bourdain tem a sua própria cultura de banda desenhada, sobretudo do underground dos anos 1970, mas falamos aqui é da escrita específica que leva às estruturas visuais do texto final. Todavia, se formos mais longe que o notório “cool” desta narrativa, uma análise cuidada revelará que estruturalmente o livro apresenta alguns desequilíbrios (o uso, apenas uma vez, de uma legenda de um narrador externo, que leva à sua dispensabilidade quase total; uma caracterização das personagens que nem sempre nos parece ser a mais ponderada; situações que não são jamais resolvidas, num caso demasiado óbvio de “querer manter o mistério”, mas por isso sem subtileza; e algum abuso de clichés, que só podem ser aceitáveis se se considerar este um exercício ligeiro). Já no que diz respeito à camada visual, digamos que o trabalho de Foss é competente, sem ser brilhante. Como grande parte da tendência contemporânea da banda desenhada norte-americana, a composição é feita um pouco ao acaso, com raras excepções onde se procuram formar estruturas mais dinâmicas, interessantes e significativas. A figuração plástica e ligeiramente estilizada (abonecada) remete para os corpos de um Corben (de que Bourdain é fã, pelos vistos), por exemplo, sem esquecer uma larga influência da mangá mais clássica, sobretudo nos rostos (o chef Bob parece um Clark Kent mais velho), mas o uso de establishing shots, planos gerais e cheios, encaixes de vinhetas de planos de pormenores extremos, muitas piadas privadas, textuais ou visuais (desde o stand no mercado de peixe do capitão Haddock às sapatilhas tabi de Jiro), cenas de acção sem texto, e as várias estratificações de informação visual nas imagens, aproximá-lo-ão – também pelas cores vivas de Villarrubia – de um Seth Fisher ou um Geof Darrow, mas sem a vivacidade e dinamismo do primeiro nem a compulsão ou brio de detalhe do segundo.
Get Jiro! é, portanto, um curioso e divertido exercício de cruzamento de géneros e tendências. Violento (gore, mesmo, nalguns momentos), procura ser sensível a toda uma série de questões – desde as ecológicas às de respeito para com as várias culturais globais, passando pela identidade cultural que passa pela culinária (questões por vezes de grande sensibilidade) -, e, como não poderia deixar de ser, é condimentada com breves cenas “enciclopédicas” (empregamos um termo de Fresnault-Deruelle), na qual se demonstram de uma forma esquemática, mas aparentada às “receitas filmadas”, algumas receitas (associando este título, mesmo que tenuemente, a coisas como Oishinbo e/ou The Art of Pho, ou mesmo Le gourmet solitaire, de Taniguchi). Há dois momentos também em que o prazer sensorial de Jiro, face a cozinha dos outros, se expressa graficamente, mas infelizmente essa não será uma das dimensões mais exploradas. Toda a narrativa está imersa, ainda assim, no conhecido humor descontraído e informal de Bourdain, que torna este livro mais um entretenimento bem construído do que outra coisa.

29 de Agosto de 2012

Dois livros de Batman (DC Comics)


Como já havíamos explicado noutro momento, a falta de uma mais continuada leitura de livros do mainstream de super-heróis deve-se à dificuldade em acompanhar todos os títulos, uma vez que a sua economia de produção é protelada, nem sempre se prezar a contenção de uma unidade narrativa (as séries estão sistematicamente a entrar em novas crises, crossovers, reboots, etc.) e raramente escaparem a uma certa gravidade para que se tornem gestos interessantes num panorama mais alargado da banda desenhada. Todavia, não acreditando na existência de um território comum a não ser pela sua descrição mediática, é necessário que se elejam instrumentos específicos para ler esses mesmos títulos, e estar-se consciente e sensível a o que se busca ser sempre diverso a todos os níveis: os seus estímulos, as suas ferramentas de criação de sentido, a tensão que produzem em relação à nossa experiência societal, etc. Daí que seja impensável pensar em termos de uma notação crítica que criaria a ilusão de uma qualquer objectividade (impossível, inexistente), como as “estrelas” ou os “pontos”, por exemplo. Seria grotesco, portanto, querer utilizar os mesmos instrumentos de apreciação críticos que são usados em relação a, por exemplo, uma publicação como Buraco, ou o livro Sobrevida, ou a série Death Note, sobre uma produção deste tipo. Isto não significa que não se possam fazer comparações, ou querer avançar um princípio mais ou menos transversal de apreciação da banda desenhada como um “todo”, que levará porventura a cânones, hierarquias de complexidade, ou meras preferências, mais ou menos perenes ou mais ou menos passageiras, mas é preciso ter cuidado com as qualificações. De uma forma mais circunscrita, devemos antes perguntarmo-nos até que ponto estes títulos trazem um novo tratamento destas personagens e histórias familiares, de que forma empregam uma tradição num tempo contemporâneo ou tendências contemporâneas nesta tradição, etc. Repare-se mesmo como, na capa, a importância e proeminência é dada, em primeiro lugar, à personagem, e não aos autores.
O problema da obrigação em se respeitar a continuidade de publicação - isto é, os eventos canónicos no interior do universo ficcional e que todos os sequentes autores devem respeitar - é que sempre haverá uma interrupção qualquer para a coesão do projecto que houver em curso, e é raro que estes se mantenham o tempo suficiente para serem levados a cabo de uma maneira respeitável. Talvez Bendis seja a grande excepção (com o seu Demolidor e Ultimate Spider-man). Há autores, como Scott Snyder, que trabalha actualmente a continuidade de Batman, que conseguem, nas palavras do autor português Jorge Coelho, “respeitar os leitores”, no sentido em que absorvem a história e não a negam, independentemente das mudanças editorais da casa (The New 52), e não procurando revolucionar as premissas conseguem fazer emergir algo ajuizado. Nos dois casos aqui em discussão, porém, há uma maior liberdade em relação ao espartilho da continuidade. Entendamos, portanto, que jamais é possível ler estas obras (e também os seus derivados, como os filmes) de uma maneira totalmente alheia ao seu contexto maior de produção, circulação e uso, como se faria a um texto de banda desenhada independente destes factores. Há, portanto, na leitura de novos títulos de banda desenhada de super-heróis, uma negociação entre tradicionalismo/conservadorismo e inovação, originalidade e familiarização, e para mais, nestes exercícios de “universos paralelos” ou “mundos outros”, essa negociação é ainda mais circunscrita (e por isso específica).
Parte do prazer em ler estas histórias, então, encontra-se num movimento duplo que não se prende somente com a leitura/interpretação da história em si, mas da sua constante comparação com outras histórias anteriores (e que tanto podem ser exemplos específicos como toda a amálgama de memória de décadas da sua leitura, e outras mais de produção - pois a nossa leitura apenas pode cobrir parte dessa produção, se houver leituras retrospectivas). Quer dizer, é mais ou menos claro que qualquer das nossas experiências, relativas à fruição de arte ou não, é feita sempre num quadro da nossa percepção, memória, vivência, etc., mas no caso dos super-heróis, a malha da intertextualidade é de uma significância extrema (inevitável, mesmo, quase uma qualidade intrínseca a estas personagens). Não se trata de encontrarmos factores que estejam “errados” ou “certos”, tampouco se “funcionam” ou não, mas antes se se conseguem afastar o suficiente para tornar a nova história numa variação curiosa, digna e bem construída, mas ao mesmo tempo deixando visíveis as suas ligações gravitacionais à matéria original, que, na verdade, se vai tornando, à medida que o tempo passa, e no caso de Batman estamos a falar de 70 anos de histórias, uma amálgama de gestos, e não somente dos primeiros trabalhos de Kane e Finger… Como dizia Bat-Mite num episódio da série de animação Batman: The Brave and the Bold, “A história rica de Batman permite que ele seja interpretado de múltiplas maneiras. É verdade que esta [da série de animação] é uma encarnação mais leve, mas não é menos válida nem menos verdadeira às suas raízes do que o vingador torturado a choramingar pela mamã e o papá”. Quer Earth One quer Death by Design apresentam o vingador, mas entre si são bem diversos. O grau de conhecimento e entrega dos leitores destas sagas multímodas são também a matéria que constitui o “capital cultural” muito específico desta sub-cultura (ou seja, quanto mais aspectos subtis se entenderem, mais recompensada é a leitura). Ambos os títulos que trazemos aqui à colação trabalham já em princípios tipificados no interior da economia das “variações” da continuidade oficial (no interior da qual se estruturam narrativas diferenciadas conhecidas por “runs”, quando se referem à participação de um escritor e/ou de um artista particular, ou “storylines” quando se referem a intrigas específicas e com princípios e fins mais ou menos determinados). O princípio que opera Earth One é mesmo o de série, e é idêntico ao da subsidiária, ou “imprint”, Ultimates da Marvel, onde se procura um maior “realismo sombrio” com estas personagens de fantasia. Tal como All-Star, também Earth One opta por juntar escritores e artistas de alto perfil, para se produzirem trabalhos acima da média, mas onde a anterior série era de comic books, neste caso é de livros que se trata, ou em inglês, o termo composto, estranho mas muito específico de Original graphic novel. Death by Design não se integra em nenhuma série propriamente dita, mas muitos dos leitores da DC poderão imaginar tratar-se de uma peça da antiga série Elseworlds.
Iríamos mesmo ao ponto de tecer uma generalização e redução quase absurda (as simplificações são necessárias para a argumentação, mas não a simplificação excessiva), e dizer que o prazer de ler estas histórias teria menos a ver com a apreciação de tramas complexas e estimulantes (como sucede com a leitura das obras de um Naoki Urasawa ou um Hideo Yamamoto), ou “crescimento psicológico/social” das personagens (por hipótese, em Ware, Clowes, Bechdel, Baudoin, etc.) o ou que desfruir da arte dos desenhos (como nos centramos com a obra de Brecht Evens), ou tentar perceber como respondem a questões contemporâneas (políticas, identitárias, etc., como ocorre na esmagadora maioria das bandas desenhadas a que se dá o nome geral de “alternativas”), do que nesse prazer de contínua comparação com essa História. Claro está que todas essas dimensões são analisáveis – por exemplo, a estrutura narrativa de Kidd é bem mais simples e linear que a de Johns, se bem que a de Johns siga fórmulas usuais; ambos pretendem associar Batman a um grau de realismo onde a sua humanidade e capacidade de falhar é patente, mas em que a dimensão social real - se bem que sempre, de alguma forma, reduzida da sua imensa complexidade - é mais marcada em Earth One; e ambos trazem à tona as tensões políticas específicas desta personagem. Apenas a distribuição desses factores é diferente (ou, pelo menos, o momentâneo foco crítico que nos interessa explorar). Uma das estratégias obrigatórias nesse sentido é que as várias personagens famosas da série surjam de alguma forma, ora nos seus papéis habituais, haja que variações sejam possíveis, ora transformados de alguma forma. Até no último filme de Nolan, uma referência a Killer Croc é feita de raspão… Em Earth One, por exemplo, Cobblepot/Pinguim aparece como o Presidente da Camara de Gotham (e o pai de Bruce, Thomas Wayne, é seu concorrente, eliminado eventualmente por razões políticas), e existem vários pontos em que entenderemos surgirem os costumeiros cameos ou referências distorcidas. Os aspectos mais tolos da (história da) personagem também são explorados, como se pode verificar pela presença de cenas, em cada livro, que lidam com o (péssimo) bat-grappler”.
Batman: Earth One. Geoff Johns e Gary Frank (DC Comics)
Geoff Johns, tal como muitos dos mais jovens escritores profissionais da indústria do mainstream de super-heróis norte-americano (por oposição, apenas em benefício da presente discussão, de um autor como Kidd a querer “dar um toque” na mesma indústria), tem que gerir, por um lado, a sua vontade de fã em brincar com as personagens, que vem de anos da sua leitura desde criança – quer dizer, parte da vontade em criar histórias novas para estas personagens nasce do cadinho da sua leitura e fantasia pessoal, tão típica de gerações de autores (a própria indústria dos comic books, desde Siegel e Shuster, nasce com “fãs”, mas à medida que o tempo passa a especialização é maior) - e a capacidade de inovação interna. Johns escreveu muito material, inclusive para os “Grandes Dois”, mas sempre em flutuações constantes de qualidade (recentemente, a colecção Levoir/Público Heróis da Marvel optou por editar dois volumes dos Vingadores com histórias de Johns, maus exemplos quer do que Johns pode criar e do que essas personagens já protagonizaram, por exemplo). Com Gary Frank também como artista, por exemplo, escreveu Superman: Secret Origins, o qual, não deixando de ser um daqueles gestos que se têm de cumprir regularmente ao fim de uns tantos anos depois das “limpezas e reposição de continuidade” (recordando precisamente o Super-homem de John Byrne), não cria uma narrativa má de todo. Enquanto “história definitiva”, para um período sempre a prazo nesta indústria, ela é suficientemente tradicional e até protectora das expectativas da companhia, que deve defender os seus activos patrimoniais, para se tornar icónica num prazo mais alargado (isto é, depois de não fazer mais parte da continuidade em vigor, como agora ocorre no período The New 52). É essa mesma tendência que opera em Earth One, com um Batman que não é idêntico ao que Snyder emprega, mas reformula a premissa de Batman num universo mais contido. Os seus instrumentos são menos fantásticos, são falíveis, as relações entre as personagens são relativamente diferentes (o Alfred desta história é um veterano de guerra que age como mentor, âncora moral, e até mesmo cumprindo o papel do Bruce Wayne de Batman Beyond em relação ao jovem Terry), e a relação entre a sociedade em geral e estas personagens mascaradas, justiceiros-vigilantes que trabalham à margem da lei sofrem tensões de aceitabilidade maior. Isso faz com que as acusações típicas (e merecidas) do papel social dos super-heróis à luz de uma democracia participativa venham à tona, mas não procurem uma solução simples. Acima  de tudo, e este é um dos trunfos de Johns, a importância principal está na relação a nível pessoal entre as personagens, as crises que todas elas atravessam em relação umas às outras, a forma como se descobrem e se deixam descobrir. Para Johns a importância desta personagem em particular, Batman, está a sua densidade psicológica, a forma como seu trauma se impõe e obriga a cumprir o papel que escolheu, etc. (repara-se como a capa opta por uma imagem que remete a um momento de silêncio e integração da dor da perda e, eventualmente, da “promessa” de Bruce; um factor algo estrambólico é Alfred ter na mão uma arma de fogo…). Sabemos já a história toda, e o interessante, e até valor de entretenimento, é vermos como é que esse papéis acabam por ser preenchidos por vias bem diferentes.
Gary Frank é um desses autores que não só é de uma extrema competência na linguagem normalizada deste género, como tem toda uma série de qualidades perfeitas para este projecto em particular. Se as suas composições de página são mais convencionais com uma contida mas significativa disjunção momentânea dessas fórmulas para maior impacto na diegese, há uma enorme atenção para a expressão emocional dos rostos (demonstrando o quanto deve ao recém-falecido Joe Kubert; e o trabalho de arte-final de Jonathan Sibal ajuda perfeitamente a ancorar essas linhas e essa associação). A também contida gestão das splash pages, de sequências de silêncio (tudo isto, possivelmente, co-planeado com Johns) e a forma como cria ritmos cromáticos de cena em cena (graças ao trabalho de Brand Anderson), torna esta uma obra competente, ainda que pouco diferenciada de outras tantas. Não deixa de haver, porém, momentos algo gratuitos de referência. Se Alfred é, nesta história, veterano da Guerra da Coreia - muitas vezes ausente da memória recente dos norte-americanos, mas que permitiria associações à própria tradição da banda desenhada local, como Darwyn Cooke fez em The New Frontier, remetendo a Harvey Kurtzman-, a presença de uma armadura completa de samurai cumpre em demasia um papel deus ex machina despropositado).
Não será inocente, por exemplo, o uso que Frank faz do rosto (ou de um desenho que tem características que remetem ao rosto) de Christopher Reeves, como o havia feito de uma forma mais nítida Em Superman, Secret Origin, para a personagem de Thomas Wayne (tratando-se também de uma colaboração com Johns, e tendo sido este assistente de Richard Donner, é possível que haja aqui uma vontade conjunta). É como se se pretendesse ainda encontrar alguma inocência, ou uma associação a um tempo menos complicado (isto é, sob a óptica do que hoje é feito), no interior da desolação que atravessa o género, cada vez mais acossado nos tempos que correm, que pedem por outro tipo de fantasias. De acordo com a teoria dos géneros, sobretudo do cinema, existe um ciclo mais ou menos repetido nos géneros: um momento experimental, em que se lançam as bases do género, depois uma fase clássica, de cimentação, seguindo-se um período de afinamento, em que se procuram pequenas variações, uma outra fase barroca, em que são essas mesmas características típicas que se tornam a matéria principal das obras, e finalmente uma fase reconstrutiva, em que se revisitam as bases do género mas com uma grande consciência, metalinguística, auto-reflexiva, desse mesmo ciclo (seguimos as lições de Peter Coogan, precisamente para o género aqui em causa). Tanto este como o livro seguinte são criados nesse cadinho, e que recordam novamente a tal tensão ou negociação entre a história longa da personagem e o espaço que ainda pode haver para variações e inovações.
Batman: Death by Design. Chip Kidd e Dave Taylor (DC Comics)
Ao passo que Johns quer “brincar” com as personagens propriamente ditas, com os estratos das suas personalidades que se vão formando ao longo de anos e de entrega a nível pessoal, emocional, Kidd parece mais preocupado com o conceito geral da personagem, e com o nível de impacto simbólico que ela pode ter na sua sociedade que a cria e para a qual também contribui. Batman, aliás, parece-nos ser mais mercurial, apesar de tudo, do que o Super-homem (se bem que este tenha atravessado várias fases em termos de símbolo social, atenção). Se, por um lado, a sua mais breve descrição pode remeter para um fundo ideológico proto-fascista e classista que não poder escamoteado de forma alguma – Bruce Wayne é um filho de classes privilegiadas que prefere combater o pequeno crime em vez de intervir a outros níveis (mesmo que isso seja explorado em algumas histórias, como em Earth One, ou neste livro, mais superficialmente) -, por outro, enquanto personagem suficientemente esvaziada para ser completada pela fantasia dos seus leitores, ela pode servir para outros propósitos simbólicos (veja-se a diferença entre o tratamento cinematográfico de Burton e de Nolan, que devem ser contextualizados historicamente, ou as consequências da imitação do seu universo no mundo real). Kidd, portanto, faz jus à sua conhecida obsessão, de coleccionador, fetichista, em torno desta personagem (a sua reificação de Batman ajuda-nos a compreender melhor o afastamento da personagem e aproximação do ícone); pense-se em Batman Collected. Em suma, contra a psicologia de Johns, Kidd opta pelo cool (repare-se como neste caso, a capa remete a algo mais icónico, simbólico, integrado plasticamente na paisagem).
Não sendo a primeira vez que Kidd escreve para esta personagem – já fizera uma curta para Alex Ross, e trabalhou na série de animação retro Batman: the Brave and the Bold, já citada acima – é a história mais longa e que pretenderia ser um projecto mais coeso. Esperar-se-ia que a concentração de Kidd fosse maior em termos objectuais, e isso é notório. O seu fetichismo vê-se expresso no foco que existe nas maquinarias empregues por Batman e por uma nova personagem propositadamente inventada para esta história, uma espécie de paladino da arquitectura clássica de Gotham, que se encontra em perigo por causa do progresso (de que Wayne é símbolo e motor), uma personagem tristememente chamada Exacto (em português, “x-acto”). No entanto, a descrição da trama parece ser mais interessante que o actual tratamento da mesma. Exacto pretende proteger o edifício, a Wayne Central Station (num momento do livro chamado de “WC Station”, fazendo transparecer um humor algo básico), mas Batman não entende a razão, que se prende com corrupção na construção e na política local. Depois das reviravoltas esperadas, que parecem preencher todos os requisitos dos manuais de escrita de Hollywood, Batman acaba por se aliar à missão, ainda que não ao estilo, de Exacto e, apesar da torre ser destruída, procura-se um final feliz, com uma moral mais forte e tudo. O tema é óbvio: a visão do artista versus os interesses corporativos e capitalistas (representados e defendidos, afinal, pelo próprio Wayne/Batman) e a lição é: apenas unindo uma e outros é que se atinge o progresso materialista humano. Dificilmente se poderá ver isso como progressista… O aparecimento do Joker (vejam-se as primeiras imagens na abertura do blog) parece mais uma espécie de obrigação contratual, ou fan-service, do que algo verdadeiramente necessário para a intriga montada (e, para os fãs, perguntamo-nos mesmo se se trata de uma versão particularmente interessante). O uso do rosto do próprio Kidd, com os seus conhecidos óculos de aros redondos, como o novo personagem desta história faz prever uma espécie de jogo auto-referencial e de fantasia do autor (a menos que essa decisão tenha sido exclusivamente de Taylor, mas não muda o efeito sobre o leitor) que apenas traz uma dimensão distractiva à história. Se Kidd é fisicamente uma espécie de Clark Kent, ele não quer “assumir” o papel de Batman, mas de um outro herói cujos instrumentos de acção são diferentes, mas preparados para a colaboração - tal como um designer de comunicação - para levar a “mensagem” avante.
Há um quase consenso dos leitores e apreciadores do livro que a força deste livro reside na sua matéria gráfica. A elegância de algumas páginas é nítida, como esta de Taylor (a segunda da diegese; e compara-se com uma cena análoga por G. Frank, acima). A forma como as divisões se vão operando, em que as segundas unidades se vão subdividindo - primeiro em duas metades verticais, depois a segunda coluna em duas metades idênticas, a segunda das quais num ligeiro desequilíbrio mas podendo entender graus cada vez mais sucintos – e a forma como se constroem imagens especulares, de pormenor, de variação, etc., são sinal do denodo do autor. Aliado a pormenores como o símbolo de Batman surge como um ícone totalmente plano, de duas dimensões, sobre o peito do herói, a escolha por corpos pouco musculados mas graciosos (recordando as opções de Moebius, claro e explícito modelo para Taylor, sempre que enveredou pelo universo dos super-heróis, em histórias, ilustrações e paródias), e de expressões vincadas, essa elegância repete-se variadíssimas vezes. O seu trabalho sem tintas, reproduzindo apenas os desenhos a grafite e acrescentando um controladíssimo trabalho de cor digital, mostra como, pelo menos para este projecto, lhe interessará menos uma contínua espectacularização, típica dos super-heróis, mas antes um equilíbrio entre períodos expositivos, de acalmia e explosivos.
Ambos os livros são excelentes adições à contínua colecção de histórias “alternativas” desta personagem (como alguns títulos da Elseworlds, ou alguns livros isolados, como os ainda soberbos, a nosso ver, Year One e The Killing Joke), mas apenas o tempo dirá até que medida o seu impacto será sentido quer na continuidade oficial ou canónica da história da personagem quer no plano “imaginário”... Mas como escreveu Alan Moore em Whatever Happened to the Man of Tomorrow?, “Esta é uma história imaginária… não são todas?”.
Nota final: agradecimentos a André Oliveira, pelo apoio gráfico.

27 de Agosto de 2012

Vários títulos. AAVV (Bags of Books)

Nos últimos anos, Portugal tem visto os gestos editoriais, de apreciação, discussão, criação, circulação e divulgação relacionados com a ilustração “infantil” multiplicados, mas acima de tudo temos visto uma tendência geral para a melhoria desta área em termos artísticos. Nem sempre vemos as melhores alianças entre os textos e as imagens, nem sempre vemos verdadeiras colaborações, nem as melhores “traduções” pela parte dos ilustradores, ou escolhas de integração gráfica dos projectos, mas em termos gerais o balanço é positivo, como se poderá entender, em parte, com a publicação Como as cerejas, sobre a participação de Portugal em Bolonha (e de que falaremos, esperemos, em breve). O surgimento de novos agentes editoriais é sempre um dos factores mais significativos.
Não faz parte das nossas competências tecer comentários (pois jamais seriam mais do que isso) sobre as opções editoriais da casa Bags of Books, mas um pequeno olhar distante sobre este conjunto de publicações leva-nos desde logo a ver três sub-grupos que não apenas emergem pelas razões óbvias (autores, colecções, séries) mas pelas linhas de força que pretendem criar no seu interior. Isto é, cada um destes pequenos conjuntos parece responder a uma tendência ou a uma possibilidade do espaço que os livros ilustrados infantis podem ocupar, assim como de resposta comercial à procura, e a tentativa de criar uma nova oferta (e entretanto, com Tomi Ungerer, também já penetraram na tendência da recuperação - ou primeira edição em Portugal - de clássicos internacionais).
O mundo no chão/Saudade. Nuno Casimiro/Claudio Hochman e João Vaz de Carvalho.
Dos três núcleos, estes serão aqueles que se encontrarão numa fasquia “intermédia”, entre os mais contemporâneos de Alemagna e os mais convencionais de Rodriguez. Não deixam estes dois livros de estar numa categoria “clássica”, pelo menos em termos “de mercado”, tratando-se de gestos que nascem em primeiro lugar nos textos dos seus autores, que depois ganham uma dimensão comercial de livro a circular pelas imagens dos ilustradores convidados, neste caso o mesmo, João Vaz de Carvalho, detentor de um estilo e figuração muito próprios, e já reconhecíveis. No entanto, é o espaço que é aberto a autores portugueses (um espanhol, que reside em Portugal, e que usa um tema “português”), mostrando como a recente editora deseja criar um catálogo diversificado (mais vasto do que aqui mostramos).
Ambos os livros apresentam o texto em blocos colocados em páginas isoladas das imagens, não se procurando um entrosamento maior (como ocorre nos livros de Alemagna), sublinhando dessa forma – habitual, em livros desta natureza – a fórmula contrapontística entre texto e imagem, entre territórios que partilham fronteiras, mas não as desejam confundir. Logo, a de texto fundador e imagem que lhe (cor)responde.
As figuras de João Vaz de Carvalho seguem a sua natureza expectável, todas elas de olhos quase vidrados, reduzindo a expressão facial a um intervalo extremamente conciso, e que desvia as potencialidades interpretativas para outros sectores da imagem. No caso de O mundo no chão, escrito por Nuno Casimiro, podemos vê-las como parte do seu programa narrativo, a de que construir uma experiência praticamente desaparecida do mundo rural português (o cinema itinerante), logo as faz surgir como personagens a um só tempo deslumbradas e fantasmáticas, e cuja transformação final, inesperada, incute uma camada, retrospectivamente, ainda mais mágica, de passagens.
Todas as imagens apresentam as personagens (o gato protagonista, o senhor Antunes, a população da aldeia) viradas para a direita, estejam em movimento ou não, como se se procurassem unir noções de homogeneização dos olhares, de passagens entre mundos, de abertura do espaço da página para algo de maior que lhe escapasse. E que se vê corroborado pela ideias dos buracos no soalho (que o ilustrador traduz sempre de forma fluida, e também emprega nas guardas sempre sublinhando a ideia de estarmos face uma máquina de passagens). Todavia, e de uma maneira diferente dos livros de Rodriguez (v. adiante), que subsume essas direcções numa programa fixo, não deixa de se sentir uma certa monotonia de composição. A opção deste artista em usar cores sombrias, para não dizer sorumbáticas, mas sem com elas criar um ambiente vago, nebuloso e onírico (como, por exemplo, uma Anne Brouillard ou Hélène Riff), apenas reforça essa impressão geral.
Tendo já falado de Saudade quando da sua primeira edição (e cuja ausência de menção sequer numa nota é surpreendente), importar-nos-á aqui apenas debater a forma como o ilustrador responde ao mesmo desafio. Se bem que a versão anterior, por vários artistas amadores (maioritariamente mulheres), era algo heterogéneo, não será apenas uma questão de coerência pelas imagens terem a mesma assinatura que teremos soluções mais acabadas. Na verdade, o facto do texto ser estruturado já em si de forma tão esquemática, ganha mais com uma heterogeneidade gráfica do que com a opção, aqui presente, de uma outra repetição de esquemas visuais, num enfraquecido contraponto entre as imagens dos planetas e das cenas do rei e do “seu” Pessoa…
Depois do Natal, A gigante pequena coisa e O meu amor. Beatrice Alemagna.
No caso desta artista, estamos perante um território totalmente diferente, a que chamámos contemporâneo acima, palavra que, como já repetimos noutras ocasiões, não se prenderá somente com a data de produção, claro, mas com a capacidade de responder às capacidades expressivas que se vão abrindo, ou que se estreiam mesmo, a uma área criativa. Outra inflexão desse gesto encontra-se no facto, acumulado, de que a escrita e as imagens são lavradas pela artista, e de que essa escrita e essas imagens não procuram seguir caminhos mais ou menos já formulados.
Em termos visuais, encontramos aqui uma panóplia texturada e variada – colagens de materiais já impressos, fotografias ou papéis decorados, fragmentos trabalhados pela autora, com lápis de cor ou de cera, intervenções de grafite, rápidos apontamentos esquemáticos, e no caso de O meu amor, bordados, costuras e pedaços de tecido e botões em pano-cru -, em que as qualidades materiais do que é usado não se subsumem de forma alguma, antes criando uma tessitura coesa e, se não inconsútil, decisivamente unificada. Poderá ser reminiscente da técnica de Eric Carle, mas onde este emprega um naipe controlado e à partida homogéneo de elementos variados, Alemagna parece dispor de uma técnica mais improvisada. A sua empregabilidade num vasto repertório de enquadramentos, perspectivas, proximidades das personagens (nos dois primeiros livros não existem mesmo protagonistas, mas antes um diluimento das sensações partilhadas por um grupo delas, que tendem a representar a humanidade em geral), de eixos de direcção das linhas de força, da composição das massas e das cores, reforça ainda mais essa ideia dupla de variedade versus singularidade. O próprio formato dos livros é ainda outro aspecto a ter em conta, se bem que o A gigantesca pequena coisa, pela sua enormidade, pode levar a uma performatividade – uma dimensão lúdica quase obrigatória de ter em conta na leitura destes livros - muito particular.
Uma vez que é a própria autora a procurar as relações que bem entende entre as palavras que lavra e as imagens que tece nos seus livros (fazendo imaginar até uma produção “invertida”, com as imagens na dianteira), há uma possibilidade total de não precisar de “respeitar a letra da lei” do texto original, por assim dizer. Ou seja, evitar-se-á qualquer elo de subordinação ou de disrupção (já que ambos demonstrarão desde logo uma ligação directa), permitindo antes que possa emergir uma relação complementar que é (re)construída pelo próprio leitor. Porém, uma vez que o próprio texto é menos narrativo do que descritivo de sensações – Depois do Natal parece uma colecção de afirmações de várias vozes, em torno da angústia ou nostalgia instantânea que vem depois dessa quadra (para quem a partilha e a aprecia, claro está), O meu amor começa como uma tentativa de auto-identificação pela parte do protagonista e a sua resposta encontrada na outra criatura, e …coisa é um exercício oblíquo que tenta detectar, mas sempre um momento tarde demais, a localização das pequenas coisas que compõem o que é a felicidade – algumas das imagens podem ser claras representações do que se prevê no texto, ao passo que outras podem fazer-se valer de valores diferentes (a relação entre a felicidade e o que vento leva, o pinheiro sempre tombado, deitado fora, de Natal). No caso d’O meu amor, por exemplo, as alterações radicais nos elementos que compõem gráfica e fisicamente as personagens repetidas não são factor de estranheza, mas antes da própria flutuação de humores e de auto-percepção que temos de nós mesmos, mostrando a eventual interdependência que existe nos seres humanos (o que pode ser entendido também como a lição de todos os livros de Alemagna).
O ladrão de galinhas, A vingança do galo e A pesca. Béatrice Rodriguez.
Destes três blocos aqui discutidos, talvez esta colecção seja a mais convencional segundo toda uma série de parâmetros. Afinal de contas, esta série de livros com as mesmas personagens apresenta histórias simples, lineares e sobretudo despretensiosas, que exploram os seus temas de uma forma mais singela, sem moldar as emoções de uma forma poética como os projectos anteriores. Todas tiram partido de dois elementos principais, que são mesmo os seus princípios estruturantes narrativos (e clássicos): o movimento linear e o mal-entendido. Em relação a este segundo elemento, são as comédias de erros típicas, que levam desde ver o “ladrão de galinhas” a revelar-se uma raposa apaixonada pela galinha a um tesouro que é mais valioso do que se esperaria ao início, e uma aventura bem-sucedida.
Mas é sobretudo a exploração do movimento linear (no primeiro livro causado pela fuga da raposa e a sua perseguição pelos outros animais, no segundo a captura de um ovo misterioso e a fuga do galo, no terceiro a semi-captura de uma serpente marinha) que torna a forma e o conteúdo destes livros de Rodriguez numa unidade coesa. O dinamismo permitido pelo formato dos livros é explorado sistemática e completamente: cada duas páginas abertas (que medem assim aproximadamente 16 por 52 cm) criam um panorama ou uma paisagem que constituem uma só unidade espacial, que ora é entendida como um momento específico na acção, e onde a distribuição das personagens ajuda a compreender as relações entre uns e outros (seja em momentos de grande dinamismo e dramatismo, seja nos momentos mais calmos), ora é vista como uma paisagem onde o movimento das mesmas personagens é estratificado em micro-acções, reiterando de uma forma diferente a ideia dinâmica que subjaz a toda a acção. A figuração de Rodriguez é muito simples, procurando acima de tudo a clareza de identificação das personagens, tornando este livro apto aos primeiros leitores, que começam a tomar decisões de como associar e coligir o significado narrativo do que observam. Isto não quer dizer que não haja uma dimensão material sensível, como se nota desde logo pela textura do papel de aguarela usado a emergir, por assim dizer, de sob as cores aplicadas. E algumas das soluções são “mágicas” (os cogumelos-candeeiro, o cardume em forma de peixe, as salamandras que se colam, etc.). As estratégias de composição de página, quase sempre “sangrando”, mas em alguns momentos utilizando enquadramentos internos significativos, e aliados a uma linguagem corporal dramática nas personagens, tornam a trama sempre de fácil e clara apreensão, que são aqui vantagem.
A ausência de texto (a colecção chama-se “Histórias sem palavras”, seguindo o gesto editorial original da Autrement, de que provêm estes livros, e os de Alemagna) traz ainda uma outra dimensão importante, sobretudo nos casos em que o livro é “lido” por um adulto, que é a obrigação em procurar uma performatividade na base do improviso, em vez de fechar o leitor num roteiro programado desde logo. Isto é, a velocidade de leitura não se verá somente pautada pela leitura do texto (isto é, a redução ao que há a ler somente à matéria verbal) mas permite ou exige a passagem atenta a todas as informações visuais das imagens, e que têm elementos suficientes para pequenas subtilezas, piadas, constâncias e variações.
Dito isto, a verdade é que esta série pode ser interpretada como uma fábula sobre temas de uma contemporaneidade extrema, tocando temas prementes, actuais e até mesmo controversos de uma forma simplificada, mas não simplista, demonstrando como o uso de animais antropomorfizados pode ajudar a criar instrumentos de exposição de uma nova cultura. Afinal, que temas são esses? Em termos gerais, o das famílias alargadas e alternativas. A liberdade de união – de facto ou outra - entre pessoas onde não haveria essa expectativa social, a adopção, a união “interracial” (palavra terrível, mas que explica muito, e remete de novo a O meu amor), a distribuição de papéis económicos pelos sexos, e outras coisas.  Nada há de simples nesses temas, porém é tudo uma coisa tão simples… Aliás, numa brevíssima comparação a títulos como O segredo do bosque (Javier Sobrino e Elena Odriozola, Oqo) e O livro do Pedro (Manuela Bacelar, Afrontamento), vemos que os livros infantis podem muitas vezes revelar-se instrumentos de uma inteligência rara, e descontração, na abordagem destes assuntos.
Nota final: agradecimentos à editora pela generosa oferta do “saco de livros”, e desculpas pela demora na nossa leitura.

24 de Agosto de 2012

Buraco #1-4. AAVV

Uma vez que “demorámos” na leitura dos três primeiros números desta publicação, a sua leitura agora à luz do quarto número não pode deixar de fazer revelar algumas interpretações retrospectivas. É possível que, fosse ela feita noutro momento anterior, o nosso discurso procurasse outros instrumentos, delimitasse os gestos de outra forma, mas essa não é mais uma possibilidade. Seja como for, a vertente interventiva, política, de comentário social, é por demais evidente nos trabalhos reunidos nas suas páginas, e que simplesmente se exacerba - inclusive na sua “explosão” ao nível material - no quarto número.
De uma forma superficial, poderíamos descrever Buraco como mais uma publicação antológica que reúne os esforços de alguns artistas que têm continuamente colaborado em vários projectos, mas que pretendiam trazer um qualquer grau relativamente diferente em termos da forma de o fazer. Associando-se a muitas publicações contemporâneas, mas que pretendem a um só tempo remeter, complicar e associar-se paradoxalmente a práticas passadas, Buraco pode ser descrito como um “jornal”. O seu formato (25 x 35 cm, fechado), a sua paleta cromática (a preto-e-branco no miolo, capa com uma segunda cor, por vezes dispensando o preto, e repetindo esse padrão na folha central), até a sua periodicidade (mais desejada que cumprida), o tirar partido de toda a folha para os trabalhos (com excepção do quarto número), entre outros descritores, permite-nos o uso dessa palavra (e, assim, associá-la a coisas como Paper Rodeo, Kuti Kuti, ou Diamond Comics). Não obstante, a agregação destes autores a  uma linha de fanzines não é de todo deslocada, tendo em conta se tratarem - o núcleo duro, que coordena o projecto - de Miguel Carneiro e Marco Mendes (do projecto A Mula), Nuno Sousa e Carlos Pinheiro (do Senhorio), Bruno Borges (do Monteravi) e ainda uma nova autora (em termos de exposição pública) do Porto que assina como usurpária, e cujo emprego dos lápis, sem tinta, é desde logo consabido (mais - e agora com informações corrigidas - o autor que assinava como cumulonimbus, apesar de ser parte activa em termos editoriais do núcleo, não voltou ainda a produzir trabalhos de banda desenhada no seu interior). Além destes, a ideia é existirem “convidados” em cada número, mas os nomes de André Lemos, Jucifer, André Ruivo, José Feitor, José Smith, Joaquim Vieira, entre outros, remetem para um universo de criação e edição relativamente coeso, coerente e contínuo no nosso país.
Os primeiros três números são bastante similares na sua distribuição de trabalho, com uma média de 2 páginas por autor, mas nalguns casos ultrapassando-as, ora com histórias maiores (Carlos Pinheiro com 4) ora com trabalhos de diversa natureza (como Marco Mendes, com uma  ilustração maior). Quase todos os autores participam com trabalhos facilmente integráveis nas suas obras contínuas, seja pelas mesmas preocupações temáticas seja pelas abordagens formais, se bem que se encontrem nalguns casos, sobretudo no de Miguel Carneiro, mudanças mais significativas. Porém, e ainda no caso de Carneiro, estas mesmas alterações fazem já parte da sua própria linguagem, composta por “fases” bem diferenciadas entre si, mas que ao mesmo tempo não deixam de compor uma pesquisa continuada.
Porém, não estando seguro se existirá alguma programação explícita da parte deste núcleo e os seus convidados, não deixa de ser notável, senão mesmo óbvio, que todos os trabalhos estão unidos por preocupações sociais muito atentas ao que se passa no nosso país neste momento. Quer dizer, todos eles elegem a banda desenhada não enquanto veículo para a construção de histórias que respeitem géneros expectáveis, e o seu papel social mais usual (nada de negativo existe quer numas quer no outro, todavia procurar-se-á uma complexidade social maior, sem dúvida), nem somente como meio da expressão pessoal e de pesquisa artística que é possível, mas como claro instrumento de intervenção social e política, reforçando portanto a função e forma do “jornal” de uma maneira moldada.
Independentemente de os autores continuarem com os seus “programas habituais” - Marco Mendes revisitando a sua vida ou a vida do seu avatar pessoal, Nuno Sousa explorando um estranho mundo de arte contemporânea, solidão e geriatria, Bruno Borges as relações humanas no seu mais reduzido esquema, Carlos Pinheiro e uma revisitação de uma espécie de commedia social e cultural (Chaplin et al.) - todos eles abrem esses mesmas questões a realidades mais imediatamente ligadas ao nosso entorno actual. Os discursos dos políticos, as relações económicas e o custo de vida, o desemprego ou a sua precariedade, memória e tradições de miséria no país, a falta de habitação, as relações entre o poder oficial e projectos alternativos de vida (o tema do projecto Es.Col.A já se encontra in ovo, no terceiro número, pelo trabalho de usurpária), ou a imposição de discursos e comportamentos à população, ou mesmo a imbecilidade de certos actores públicos, enfim, tensões que se sentem cada vez mais nos nossos dias. Até alguns títulos das peças remetem, sob a forma de citação ou expressões feitas, a nomes próprios ou conceitos específicos, a essas mesmas realidades: “Tempos modernos”, “A vida acima das suas possibilidades”, “Amanhã é outro dia”, “Merkel”, “Recessão”, já para não falar da maneira como alguns autores (Borges, Sousa, Pinheiro e usurpária, sobretudo) empregam toda uma retórica “oficiosa” e tipificada, de um “vai andando” de comiseração. Quer dizer, de uma forma, ou outra, todos estes trabalhos tentam ser uma resposta à gritante injustiça de certos acontecimentos que medram por Portugal, ou a desequilíbrios nas formas como os vários poderes tentam responder à crise que se atravessa. Mas acima de tudo, concorde-se ou não com o posicionamento destes autores e dos seus trabalhos, creia-se ou não nas responsabilidades até agora apuradas ou nas soluções apresentadas, penso ser-se complicado não concordar que o discurso unificado desta publicação é a de uma resistência, um contra-discurso àquele que mais se vê propalado na esfera pública, sobretudo pelos media tradicionais, quase todos sem excepção integrados numa qualquer malha de interesses e de influência política que impede, não tanto a “objectividade” (quiçá utópica), mas pelo menos algum grau de transparência em relação a esses mesmos discursos lavrados. Isto é, Buraco, é, acima de tudo, uma outra resposta, que mobiliza todos os seus instrumentos editoriais (veja-se o blog do projecto para descobrir mais), verdadeiramente alternativos, no sentido mais social da palavra.
“A presunção insolente que nenhuma resposta poderá alguma vez ser livre… tem a ver com o facto de que a resposta pretende estar à altura do discurso do outro, situá-lo, entendê-lo, ou até mesmo circunscrevê-lo ao responder ao outro e face ao outro”. Estas palavras são de Derrida, em Sauf le nom. Entender-se-á a forma como se relacionam com os assuntos trazidos a lume pela publicação. Os poderes estatais, institucionais, corroborados pelos meios de comunicação social, que não pretendem de forma algum ter mais trabalho do que lhes dá terem relações directas com as mesmas fontes oficiais, impõem sempre a regra de ouro do desequilíbrio do diálogo que é estipular essas mesmas regras e declarar toda e qualquer comunicação fora do seu âmbito como “não-existente”. Isto é, qualquer resposta que exista fora do enquadramento do que está previsto e tipificado por quem o cria não pode jamais ser visto como resposta sequer. Esta situação vê-se multiplicada numa série de situações (as relações do Estado com a banca, o papel da cultura e da educação, a malha industrial, etc.), e tem no episódio do projecto Es.Col.A na Fontinha, no Porto, um exemplo mediático (no tempo a que teve direito antes do próximo tema) acabado. Aliás, é nessa aliança que Buraco aprofunda a sua relação com essa cidade, não apenas por parte do seu núcleo ser dessa cidade (Carneiro, Mendes, Pinheiro, Sousa, usurpária), mas um pouco naquele sentido - hoje talvez banalizado - do “pensar globalmente, agir localmente”. Como escreveu Sara Figueiredo Costa, Buraco não é meramente, ou sequer, panfletário. Estará mais próximo de uma subversão rude, que, num contexto escolar, recorda o grito de revolta do pequeno Tabard em Zéro de Conduite, de Jean Vigo: “Monsieur le professeur, je vous dis merde!”.
Se no 3º número, usurpária já havia criado uma espécie de “carta aberta” sobre a situação desse projecto, com ilustrações aparentemente simples e infantis, de pequenos porquinhos sofrendo às garras dos proprietários e seus sequazes lobos, o 4º número do Buraco faz explodir a relação com a defesa desse mesmo projecto, dando voz e presença aos seus agentes, envolvidos e defensores, elaborando trabalhos de ilustração referentes à ocupação do projecto, ao seu (desnecessário e pouco inteligente) violento despejo pela parte da polícia, bandas desenhadas reportagem-comentário, documentos impressos (de cartas de parte a parte, posters), fotografias, tudo num movimento de construção de arquivo e subsídios informativos em torno desse “episódio”. É preciso notar, desde logo, que parte desses mesmos documentos, mormente gráficos, foi construída por membros do próprio grupo do Buraco, via atelier Arara, por exemplo, como os cartazes do Zé Povinho e Rui Rio espalhados pelos muros da cidade, para que fossem “intervencionados” pelos cidadãos, e mais uma vez remetendo a experiências históricas destas linguagens, como os cartazes parisienses espalhados durante o Cerco de 1870; e não se poderá falar de um certo “Cerco” nos nossos dias?). Pouco nos importará agora aqui discutir esse projecto em particular, por nem sequer estarmos munidos com todos os instrumentos que seriam necessários a isso, e por nem ser esse o papel desejado.
Não nos coibiremos porém de entender esse entrosamento entre o Buraco e o projecto Es.Col.A uma aliança, no mais profundo e integrado sentido da palavra “política” (associando-a à polis, à cidade, ao envolvimento dos cidadãos de uma forma directa no seu exercício de poder), como uma opção consciente, vincada e significativa. A escrita de uma resposta que nos pretende fazer (re)pensar seriamente sobre a maneira como as notícias são, não dadas, mas construídas, eliminando a ilusão de uma vez por todas de que “contra factos não há argumentos”, uma vez que os factos são eles mesmos argumentos, por serem construídos de uma certa maneira, e não de outra. O problema é que estas questões hoje são feitas de uma forma que as impedem de serem mais claras, ou de serem apresentadas de uma forma mais cabal. Tudo o que parece estar fora das “expectativas” ou das “tipificações” previstas pelo poder são necessariamente vistas como “problemas” e, logo, algo a erradicar, apagar, anular, vergar. Se há, pelo menos a nosso ver, alguma dificuldade em impor um fascismo militarista sobre um estado moderno europeu (ou assim querermos acreditar), já não estamos seguro sobre a forma como a relação democrática pode ser minada, em termos participativos, através da distracção e da manipulação da informação, e através de uma espécie de “opressão diluída”, em que os receios estão mais distribuídos (perder o emprego, não conseguir pagar a conta, progredir na carreira, ser elogiado por um círculo, etc.). Por exemplo, pense-se como a eleição da “droga” (reificada usualmente como um todo absoluto e sem quaisquer qualificações e, mais importante, sem contexto social específico e múltiplo) como o inimigo a abater apenas reforça o discurso simplista, moralizante e económico-politicamente interesseiro da oficialidade (“que não é contra o flagelo da droga?”). Como escreve o investigador Luís Fernandes, do “combate à pobreza” prometido (noutros círculos igualmente, não só na cidade do Porto), passa-se ao “combate aos pobres”. Outros pensadores contemporâneos, como Brian Massumi, também sublinham a directa relação existente com estes sistemas de opressão diluídos. Escreve ele, em The Politics of Everyday Fear: “se somos incapazes de nos separar do nosso medo, e se o medo é um mecanismo de poder para a perpetuação do domínio (…) a nossa participação inevitável na cultura capitalista do medo [é] uma cumplicidade com a nossa própria opressão, e a dos outros”. E contra o medo só pode haver uma resposta. [nota adicional, após discussão com uma leitora: Ficaremos na dúvida se este apoio é apenas nominal, já que um movimento desta natureza tem de estar revestido de acções mais consetâneas, e a dimensão romântica associada à banda desenhada, mesmo este círculo "alternativo" poderá nunca assumir o peso que pretenderia ter; por outro lado, não temos uma tradição nem muito espalhada nem eficaz destes movimentos, que lutam contra uma incompreensão alargada da parte do resto da sociedade, mas que eles mesmos se subdividem muitas vezes em mais desejos e gestos intelectuais e não tanto de diálogo e acção directa com as populações locais; falei de Vigo, e de filósofos, mas existem outros instrumentos mais prementes nestas acções, sem dúvida].
Dissemos “diluídos”, acima, mas no caso desta resistência portuense, poderemos dizer que o “inimigo” é, na verdade, mais nítido: os claros interesses camarários num processo de centrifugação violenta da cidade do Porto, na qual estão envolvidas outras realidades, do mercado do Bolhão às Torres do Aleixo, passando por toda a baixa (deprimida) da cidade. Sem dúvida que estas questões são de uma complexidade assombrosa, e que implicam factores económicos que não podem passar somente pela preservação do típico e do mesmo, mas tampouco pela fuga na transformação gentrificada mais tipificada (bairros de luxo, centros comerciais modernos, e empurrão dos problemas para zonas suburbanas), e que tanto têm redes políticas como sociais. Por outras palavras, não haverá qualquer solução simples e incontroversa. Todavia, também é seguro que não é na falta da sua discussão que se conseguirá conquistar um espaço de solução. Ora o Buraco é um contributo para isso, mormente o último número.
É, portanto, não apenas uma questão de curiosidade mas de força e alegria vermos num projecto português - usualmente alheio a um tão claro envolvimento político directo, ou com uma  realidade controversa - a empregar a banda desenhada como um possível instrumento (se o reduzir ou instrumentalizar da pior forma) de mobilização social e política, sem com isso perder as características formais e estéticas de cada um dos autores envolvidos. Demonstra-se assim como a banda desenhada não é apenas uma “máquina de fantasia” ou de “construção de mundos”, mas de resposta, mais uma vez, àquilo que Erving Goffman chamava de “desatenção civil”… Não é que não haja nestes trabalhos algum tipo de outras linhas de força, como o humor. Aliás, os trabalhos de Miguel Carneiro, mais no interior da publicação do que nas suas capas altamente estilizadas, apresenta ilustrações que remeterão para uma longa tradição que provém das revistas de caricatura e imprensa ilustrada francesa do século XIX (Daumier e seguidores) e XX, não sem fazer alguma menção a um humor de “baixo-ventre” tantas vezes elemento de autores portugueses (uma espécie de mistura entre Topor e Vilhena, portanto?). O humor mais ou menos desbragado de Marco Mendes (e seus personagens) são também um retrato do tipo de defesas, por mais fracas que sejam na verdade, que se conseguem desenvolver face a apatia e o desânimo dos nossos tempos.
Para todos os leitores que acompanharam o processo da Es.Col.A, seguramente que a pena imposta a alguns dos voluntários do projecto, a fazerem trabalho de voluntariado, talvez seja a mais divertida consequência, não fosse a terrível e bafienta justiça que isso implica: a que apenas há espaço para o voluntariado no interior de regras precisas (a “tipificação”, de que Mário Moura zomba com razão). “Numa sociedade do consumo em que a esfera pública se tem tornado incrementalmente co-extensiva ao mercado”, como escreve Sianne Ngai (Ugly Feelings), impõe-se cada vez aquela palavra de ordem de Bernard Noël (também citado por Ngai): “A revolta age, a indignação procura falar”. Ora não podemos deixar de ver em Buraco um gesto que “procura falar”, mas que num determinado momento - o quarto número - se entrosa, pelo menos parcialmente, com aquela parte de revolta protagonizada pela Es.Col.A. Se apenas fala, pelo menos é um “je vous dis merde!”.

10 de Agosto de 2012

Sangue Violeta e outro contos. Fernando Relvas (El Pep)

As vicissitudes da publicação original, no semanário Se7e, que foi extremamente influente na forma como divulgava a informação sobre cultura e música “popular” (num quadro de relativa pobreza a esse nível – como se não o fosse ainda, mas enfim, hoje mais mitigada), não deixam de se fazer notar na própria fabricação das narrativas presentes neste livro. Utilizamos esta última palavra com a certeza de descrevermos o objecto que agora de oferta, mas que levanta alguns problemas de inscrição histórica.
As pranchas originais correspondem a folhas em formato A4, ao comprido, e teriam sido publicadas no Se7e em conjunto de duas ou três. Compreende-se que a sua edição em livro não poderia - ou apenas através de um esforço de mimese complicado - seguir essa mesma distribuição, mas a opção em transformá-las em pranchas singulares, isoladas em páginas, sublinha um desejo de coerência passível num objecto coeso. Nesse sentido, Sangue Violeta e outros contos recorda-nos a experiência recente de Diário rasgado, de Marco Mendes, que também se reservou o direito de repescar o seu próprio material e submetê-lo a um adicional trabalho de edição para o transformar em novos elementos de um novo livro, que não é mera colecção do que já havia sido publicado. São antes questões de re-articulações (num meio que é ele mesmo construído sobre a ideia de articulação, segundo Groensteen) ou de flutuação de um arquivo. Esta condição levanta questões muito pertinentes e importantes sobre a circulação da banda desenhada, quer enquanto texto que tem múltiplos canais de distribuição - cada qual com os seus modos de apreensão - quer enquanto obra passível de rememoração e arquivo, questão a qual se torna ainda mais premente em Portugal, que peca de forma assinalável pela relativa ausência de gestos rememorativos, arquivísticos, históricos, salvo alguns poucos gestos, que em nada apontam a uma política de sistematização (seja dos editores e investigadores, das casas de edição, das instituições, ou até mesmo dos autores, etc.). os livros El Pep, portanto, vêm juntar-se a alguns outros projectos, tímidos, da recuperação de uma certa memória da banda desenhada portuguesa, para já aquela de uma modernidade recente.
Aliás, perguntamo-nos até que ponto é que este livro estará carregado de uma certa aura de nostalgia, presente quer no texto de introdução de Paulo Monteiro quer no trabalho editorial de Pepedelrey e Pedro Brito, e alguns dos seus leitores imediatos, dos quais não nos excluímos, que se recordarão de terem lidos estas histórias na sua adolescência ou no fim da infância, num momento muito particular em que aquilo que se buscava nas páginas da banda desenhada já não era tão-somente escapismos fantasistas, genéricas e oníricas, mas uma qualquer natureza de subversão, à medida que se apercebia o que significava ser-se subversivo. Isto é, Sangue Violeta ajudou a construir, nesse mesmo processo da sua emergência, a compreender os limites e contornos dessa subversão, que exigia uma outra banda desenhada também. Relvas, quer através do humor desbragado do Espião Acácio, quer através da terna ficção científica de Rosa Delta sem saída, quer através desta iconoclastia de Violeta (mas não, parece-nos, através do seu trabalho mais recente, como Li Moonface), foi instrumental nessa descoberta e construção. Não obstante, e a existência agora deste volume, permite relançar a pertinência, a força e o significado destes trabalhos.
Na sua publicação original, entre os anos de 1983 e 1986, estes trabalhos correspondem a três séries (palavra que o autor não emprega seguro, hesitando entre “histórias” e “contos”, apesar das respectivas incompletudes, e apontando à sua qualidade titubeante, de ensaio, de gesto numa espécie de vazio institucional). Aquele texto corrido que se apresenta agora neste objecto terá um efeito bem diferente do que fora ofertado nos anos 1980. Para já, começando pela sua ordem de entrada no jornal - que o autor diz ter sido respeitada mas o editor apresenta outra versão dos factos [nota adicional: ver comentários do autor abaixo, trata-se aqui de um entendimento diferente da leitura que fizemos]- , que começara com Sabina (1983), interrompida, seguida de Sangue Violeta, a qual também se interromperia e desembocaria numa “série dentro da série”, com Tax Driver (ambas, parece-nos, de 1984). Mas o autor, no seu blog, ainda nos chama a atenção para como estas histórias entrosam com outros dos seus trabalhos, como Cevadilha Speed e Carlos Starkiller (personagem, aliás, que “rebentaria” por dentro a série para ganhar autonomia, e que poderá ser, pelo menos em parte, um avatar do próprio autor), objectos de outros actos de revisitações editorial. A ideia de arquivo revisitável adensa-se, portanto.
Não havia, originalmente, qualquer associação entre uma série e outra, em termos programáticos, e, em menor grau, diegeticamente. Mas a sua transformação num novo texto, agora num livro, obriga os leitores a lançarem redes de interpretação que as encaixem de alguma forma. Por exemplo, se Sangue Violeta surge como uma espécie de retrato de uma Lisboa nocturna, ambígua e roqueira punk, Tax Driver parece um desvio “de Verão” interno à novela da punk de subúrbio, e depois Sabina como grau de maior realismo dos mesmos elementos (a “rapariga da trança” poderá muito bem ser uma versão outra de Violeta). A relação com a recepção musical, mormente da cena em ebulição do chamado rock português, é claríssima: vejam-se as referências a bandas reais como os Grito Final, os Mata-Ratos, ou a breve participação do jornalista João Gobern (do próprio Se7e), a determinados espaços de espectáculos (não sendo explícito, é possível que se trate do mítico Rock Rendez-Vous), e outras cenas “ambientais”. Ou seja, até certo ponto, e isto não deixa de ser sintomático da banda desenhada portuguesa (se bem que, diga-se de passagem, também se verifica em muitos dos outros círculos criativos portugueses, do cinema ao teatro), parte dos locais, das personagens, dos acontecimentos, das situações retratadas nestas páginas nasce do envolvimento do círculo das vivências, amigos e experiências do autor, e dos seus próximos, criando-se um rol de “inside jokes” que seriam (são) melhor ou pior compreendidas quanto o nível de conhecimento/envolvência com esse mesmo contexto. Sobreviverá, porém, algum desse imaginário nestas páginas para os leitores dos nossos dias, para além daqueles que estão a relê-las? Pensamos que sim. Aliás, se não fossem algumas pequenas minúcias de moda, estilos musicais ou objectos, o tipo de rivalidades, de tensão destas “culturas marginais” face à sobreexposição do comercialismo, é a mesma. Até em questões de moda, poderíamos encontrar afinidades gerais, por exemplo entre os punks e os rockabillys ou góticos actuais (salve as distâncias dos papéis que as respectivas músicas têm nos nossos dias, e a sua relação com o resto do tecido social), ou entre os freaks dos anos 1970/80 com os freaks dos anos 2010.
De uma certa perspectiva, mas que seria manca por falta de análise e mais dados de aliança, não deixaria de ser curioso apontar as afinidades eventuais entre o trabalho de Relvas e os dos irmãos Hernandez e do barcelonês Max, que não só surgiram igualmente nos primeiros anos de 1980 (Relvas havia já começado o seu trabalho na segunda metade dos anos 1970), mas por terem todos claras ligações íntimas com um certo imaginário musical, punk, no próprio momento em que este ganhava contornos de renascença, com o hardcore nos Estados Unidos, e a sua chegada protelada aos países periféricos. Não só as características musicais, mas os seus entrosamentos com outras preocupações políticas mais alargadas, económicas, ecológicas, sexuais, ideológicas, etc., e que se nota precisamente em pormenores - que não chegam a tornar-se a matéria principal mas por isso mesmo mais insidiosa na obra de Relvas - nestas histórias.
Relvas era e, e é, um autor plenamente informado por tendências de banda desenhada que respondiam menos às tradições clássicas e comerciais da banda desenhada, por transporte das revistas especializadas e os álbuns, do que dos trabalhos específicos a certa imprensa especializada (da música, da cultura contemporânea, de envolvimento político, etc.). Ler estas páginas é também encontrar um retrato de um Portugal pouco mitificado e pitoresco (à Portugal, de Pedrosa), antes atento ao cruzamento de várias marginalidades, mas também de preocupações de busca pela identidade jovem e independente das expectativas burguesas das instituições, da família, das carreiras sociais mais expectáveis. Isso faz pensar em Relvas como um autor que, no quadro da banda desenhada francesa contemporânea, seria apodada por Bruno Lecigne de “novo realismo”: uma maior atenção para com pormenores reais da sociedade em que surgia, um questionamento das identidades dos protagonistas em relação ao contexto social (neste caso, os jovens fãs de expressões musicais “marginais”), o surgimento de aspectos paralelos mas significativos desse mesmo contexto (as cargas policiais, o conservadorismo social e moral português, a hipocrisia face a novas expressões), etc. No quadro da banda desenhada portuguesa, panorama drasticamente mais reduzido que o francês, é preciso recordar que as décadas de 1970-80 significavam o estertor de um quadro económico e cultural que se havia mantido durante os últimos cinquenta anos. Se um ponto de comparação pode ser encontrado nos trabalhos da Visão, essa mesma comparação seria breve, já que onde a esmagadora maioria dos trabalhos dessa revista preferia a via da fantasia ou de um humor irónico e transformador, Relvas optava antes por um realismo apenas ao de leve distorcido por voos fantasiosos.
Os desenhos de Relvas, e as suas opções compositivas, cromáticas, de integração da matéria verbal, etc., são de uma grande variedade. Se em termos gerais fará recordar uma vincada influência de autores como Tardi, Ted Benoît (na sua fase ante-linha clara), Michel Duveaux (mas ainda uma certa inconstância ou incómodo interno às personagens à Daniel Ceppi), de contornos negros e grossos decisivos para a delineação das personagens, há um ou outro desenho (um panorama sobre o Castelo de São Jorge, paisagens desérticas do sul de Portugal) que poderão indiciar práticas de desenho de campo, e há outros momentos de maior “nervosismo” no pulso. A própria figuração oscila entre um grau de maior naturalismo (sobretudo no episódio relativo a Sabina, no final deste volume) e outras abordagens mais arredondadas, mais humorísticas, e até se poderia salientar a distribuição dessas escolhas ao nível do grafismo associadas a certas personagens: Carlos Starkiller é sempre um “boneco”, ao passo que Violeta é mais moldada anatomicamente e Sabina ou os freaks do Algarve mais “realistas”.  Um brevíssimo trecho da história de Sabina – colagens com tramas Mecanorma – fará lembrar abordagens provindas, quiçá, dos primeiros anos da Métal Hurlant. E a inclusão de blocos de texto colados, selvaticamente, e escritos à máquina, levantam outras tantas questões da multiplicidade dos modos, das vozes, dos registos, que tem tudo a ver com a inscrição da materialidade e diversidade de discursos intrínseca aos jornais no plano da criação de banda desenhada (isto é, mais uma outra dimensão que nos obriga a pensar nesta obra como, não diria tipificada, mas intimamente associada ao género das tiras de jornal).
A esta edição falta o terceiro episódio de Violeta, mas que o editor resolveu não incluir por não terem sido encontrados os desenhos originais do mesmo, e a sua reprodução a partir dos jornais impressos ou microfilmes significar uma perda de qualidade significativa, que diminuiria a coerência do projecto do livro. Ao editor não interessará esta abordagem historicista, arquivística ou académica, decerto, e este seu contributo é, como vimos, desde já decisivo, mas fica pelo menos o seu desejo.
Nota final: agradecimentos ao editor pela oferta do livro, as imagens utilizadas (obrigado, Pedro Brito), e algumas informações, e a José Marmeleira, por algumas discussões.

2 de Agosto de 2012

The Poetics of Slumberland. Scott Bukatman (University of California Press)

(Ao contrário do que costumamos fazer, este texto é acompanhado de uma entrevista que retoma quase ponto por ponto os argumentos deste texto, incorrendo-se no risco de haver alguma repetição de ideias, leituras, etc.)
De certa forma, poder-se-á considerar este um livro não apenas transdisciplinar nos seus métodos como marcado pela variedade dos seus objectos de estudo, com isso desejando menos eleger um corpo de textos a analisar, do que compreender uma área contextual que é atravessada por uma série de questões que vibram entre esses mesmos textos e, portanto, é por eles formada. O autor é muito claro numa frase da introdução, quando diz que o seu livro “se movimenta por entre a banda desenhada, a animação e o cinema de imagem real, localizando instâncias recorrentes não só do ‘estado de animação’ [animatedness, um conceito de Sianne Ngai], mas de máquinas desobedientes, possibilidade plasmática, imagens lúdicas e produção de imagens” (23). Como se compreende, então, estão em jogo desde logo áreas criativas que são mais ou menos compreensíveis como tal (banda desenhada, animação, cinema), como conceitos operacionais que os atravessam e são igualmente reflexo de realidades culturais (as máquinas desobedientes, o estado de animação).
Estudam-se, portanto, as séries de banda desenhada e os filmes de animação de Winsor McCay (sobretudo Dream of the Rarebit Fiend, Sammy Sneeze, Little Nemo in Slumberland, e Little Nemo e Gertie), comparando-se com outros filmes antigos, das experiências de Blackton e Cohl às adaptações de Edison, passando por filmes publicitários ao documentário Le mystère Picasso, de Henri-George Clouzot, para compreender o impacto da modernidade, sobretudo urbana, de velocidades várias, máquinas em movimento, trânsito,  nos corpos e no trabalho/esforço do artista; comparam-se Metropolis, Frankenstein, My Fair Lady e Jerry Lewis, para iluminar a ideia das “máquinas desobedientes”; estabelecem-se paralelos entre os filmes Lust for Life, de Vincente Minelli sobre Van Gogh, e a curta-metragem de Paul Falkenberg e Hans Namuth sobre Pollock (e outros filmes), para perceber a emergência de uma certa forma de ver a arte, a vivacidade do Expressionismo e uma espécie de “vitória espiritual” dos Estados Unidos nó pós-Guerra; e, finalmente, lêem-se os super-heróis como figuras exacerbadas, mas necessárias, dos limites da imaginação, segundo a noção da função da irrealidade de Bachelard. McCay é uma espécie de catalisador das linhas de força do pensamento de Bukatman, mas como espírito tutelar, não propriamente como ponto de comparação, nem modelo único.
O autor faz convergir factores estéticos, sociais, tecnológicos e outros para compreender como todas essas várias determinações, mesmo não marcando com uma absoluta segurança a origem, são pelo menos marca decisiva de diferenciação. Na óptica de Bukatman, Muybridge, por exemplo, alterará a forma fundamental da banda desenhada, por exemplo (34 e ss.), uma tese que deve ser estudada em conjunto com um dos capítulos de Smolderen em Naissances… Surge um interesse maior pela temporalidade, há uma maior rapidez quer na produção (o tipo de desenho, mais solto desde Töpffer), quer nas próprias histórias (os intervalos de tempo entre cada “vinheta”), quer ainda no consumo (o jornal diário ou semanal). A qualidade de efémero desta nova banda desenhada é muito diferente do que se verificara nas gravuras de Hogarth ou nos álbuns de luxo de Töpffer, por exemplo. Essa influência, porém, não serviria para a mimese total da forma de entender e regrar o mundo (os movimentos, os corpos, a gravidade, etc.) mas antes seriam o factor que levaria à sua subversão por estas formas de arte: “uma resistência gráfica em relação aos imperativos racionalistas cartografados pela cronofotografia, uma quebra da ordem face ao cerco da ordem” (163).
Poderemos dizer que “animação” não é aqui entendida (ou, pelo menos, somente) como uma disciplina artística – a criação de objectos fílmicos que sintetizam a ilusão de movimento através da coordenação de várias imagens criadas individualmente – mas antes num seu sentido filosófico e transversal, a de uma espécie de energia tanto somática como psíquica. No primeiro sentido entendendo uma qualidade que atravessa os corpos das personagens, a tensão que passa do trabalho intenso do animador para a sua obra (numa primeira fase, mais autoral, marcada pelas primeiras práticas da animação, mas sobretudo pela obra de McCay, em Little Nemo e Gertie, posteriormente numa estrutura mais fordista, cujo exemplo máximo viria a ser representado pela Disney, se bem que a história seja mais complexa, cf. adiante). Assim entender-se-ão melhor as palavras, comparativas mesmo, entre o “corpo contraproducente” de Sammy Sneeze e a “resistência perceptiva e alucinada em relação às exigências do real” em curso na série Dream of the Rarebit Fiend (23). Mas também se cita o famoso ensaio de Eisenstein sobre Walt Disney, compreendendo-se assim o “animismo”, ou a “plasmasticidade” como “um dinamismo inerente à forma: tudo se encontra no processo de se tornar outra coisa; o mundo era móvel [mobile], em todos os sentidos da palavra” (107). Em inglês, o termo “tornar” é becoming, usualmente a palavra empregue para traduzir o conceito deleuziano de “devir” (devenir). Ou seja, não se trata tanto de uma decisiva transformação de uma forma noutra, mas antes a própria condição de possibilidade desse movimento e a sua virtualidade contínua. Como se escreve mais à frente, “a mutabilidade é antes uma simples condição do ser” (114).
O conceito de Sianne Ngai, apresentado em Ugly Feelings, e que traduziremos em português por “estado da animação” (imaginando ser desnecessário construir um neologismo, e tirando partido na natureza da nossa língua), é muito preciso e associa-se a leituras associadas aos estudos culturais e à teoria dos afectos. Poder-se-ia descrever como um estado de excessos (excesso de emoção, excesso de natureza, excesso de expressão), que usualmente está associado, por sua vez, à representação de grupos subalternos, como as mulheres ou minorias étnicas no interior dos Estados Unidos. Trata-se de um conceito complexo e paradoxal, uma vez que esse excesso (que leva a que as personagens sejam mais dadas à canção, à dança, etc.) implica que se tornem uma espécie de fantoches esvaziados transformados em meros meios através do qual representações externas - preconceitos, estereótipos, etc. - os  “animam”). No entanto, Bukatman emprega esse conceito menos para uma leitura ideológica dos textos eleitos - o que seria relativamente fácil de fazer, e seguramente fértil - do que para um entendimento do tipo de utilização pragmática, fenomenológica e afectiva a que esses textos são sujeitos. Ou seja, há uma clara separação entre a interpelação ideológica que esses textos  podem implicar (numa concepção política de uma hegemonia absoluta entre criador, obra e leitor/receptor) e o investimento emocional que os leitores podem procurar, de maneira a constituir a sua própria experiência. A qual, claro está, é tão diversificada (e, deleuzianamente, virtual) quanto os leitores.
Criam-se, porém, intervalos de condições de leitura, ou de uso. Sem reduzir os contextos a qualquer determinismo económica (a de, por exemplo, a capitalização de tudo), o autor não deixa de auscultar as diferenças sociais e económicas que estão em curso na própria animação, por exemplo contrastando a liberdade de produção e criação de um autor “solitário” como McCay, no seu primeiro filme, pelo menos, com a linha de montagem fordista que iria nascer sobretudo pelas mãos de Disney. Discutindo as lições de Rosalind Krauss e de Terry Castle sobre algumas dessas alterações na malha produtiva, Bukatman escreve que ambos “descobrem um oásis de desordem espreitando algures nos vastos desertos da razão e do capitalismo industrial, mas escolhem compreender essa presença de modos diferentes, Krauss sublinhando (ou pelo menos apontando) as restrições ideológicas da imaginação plasmática” (sobre os paradoxos dos primeiros filmes da Disney, aparentemente “libertadores” das figuras animadas) (132). O discurso é, verdadeiramente, académico, jamais procurando modelos absolutos e que atravessem toda a produção, mas antes respeitando os interstícios das negociações e tensões possíveis.
Não nos deixa de surpreender, porém (apesar do perigo de presunção que isso implica), que apesar de tantos exemplos, e citações variadas, o programa de Bukatman não se abra para os seus próprios limites ou os das áreas de que trata. Por exemplo, quando diz que “a animação é mais sobre a sua própria condição do que qualquer outra coisa” (115), poderia aqui encontrar um pasto de pesquisa quer pensando naquela famosa frase de N. McLaren  - “a animação não é a arte de desenhos que se movem, mas a arte de movimentos que se desenham” – quer numa nota de Paul Wells  – “a animação intrinsecamente providencia uma oportunidade para expressar a vida no seio do desenho/escultura, etc., nos seus próprios termos, antes de expressar a obrigação em narrar ou fazer associações representacionais” (nt. 32, pg. 227; do seu importante Understanding Animation). Esta seria uma oportunidade para falar de Reynaud ou de Svankmajer, já para não falar de outras experiências mais artísticas, radicais, abstractas (apesar de se citarem Stan Brakhage a William Kentridge), mas na entrevista o autor sublinha um aspecto importante, mesmo que o não desenvolva (e que tem a ver com a irrupção inesperada dos textos na vida quotidiana).
Como dissemos, são muitos os conceitos debatidos e experimentados ao longo de vários exemplos destas várias áreas. Acreditamos mesmo que a sua pertinência e influência sobre outros estudos (temos algum receio na palavra “aplicabilidade”, que pode dar a entender uma certa facilidade em transformar as lições de dado autor em sebentas prontas a aplicar, e não é essa a ideia a transmitir) é real e alargada. Por exemplo, quando Bukatman estuda o modo de relacionamento entre os conceitos de uncanny/Umheimlich/estranho familiar e sublime, ou como o primeiro conceito é entendido de forma diferente na sua existência cinematográfica por autor como Lev Manovich e Laura Mulvey, não deixa de ficar uma certa pulsão por uma maior precisão conceptual que pode ser iluminadora em relação a várias questões futuras.
O conceito das “máquinas desobedientes” operam num campo transmediático bastante alargado, como vimos. Desde o monstro de Frankenstein, que escapa ao poder do cientista que o compõe, à Gertie de McCay que “se porta mal”, passando por Pinóquio, a Maria de Metropolis, Eliza de My Fair Lady e até mesmo Jerry Lewis (graças à plasticidade do seu corpo, rosto, voz, etc.), cria-se um espectro muito alargado, produtivo mas sem jamais perder a pertinência de um campo teórico preciso.  Essa desobediência, apesar de “paradoxalmente programada” (sobretudo quando estamos a falar de universos fictícios ou de produtos de uma arte em que tudo está previsto e controlado, como a animação), é sinal de um outro tipo de animismo: “a máquina comporta-se autonomamente e prova a sua autonomia por se portar mal [misbehaving]” (146, sublinhado original). É sobretudo nas passagens e metamorfoses internas a algumas dessas personagens (Pinóquio quer ser um rapaz verdadeiro, as personagens da animação saltam dos tinteiros e querem ser autónomas, Eliza não será uma escrava do Professor Higgins, etc.) que se sublinhará o “estado de animação” e a sua existência enquanto nexo do devir humano:  “a espontaneidade e a animatedness são marcas do humano” (152).
Outra das dimensões importantes sublinhadas por Bukatman é a gravidade do corpo humano, as marcas do labor. “Viver é lutar por definição, e essa luta é trabalho da mais alta e exigente ordem”; e é assim que McCay e Picasso são vistos como figuras maximais da representação dessa acção – vemos as mãos deles, as expressões enquanto trabalham, as suas ferramentas, o ânimo que os atravessa, “a actividade de refazer o mundo em termos da estética própria de cada um” (177). Winsor McCay, porém, vem trazer uma exuberância visual e de produção muito diferente em relação aos artistas que trabalhavam na sua época, tanto na banda desenhada como na animação. Um rápido contraste entre os filmes de Émile Cohl ou Blackton e o primeiro filme de McCay (com Nemo) demonstrará a distância entre uns e outro. Na banda desenhada isso poderá parecer algo mais diluído, sobretudo se não se tomar em conta a circulação dos trabalhos e a data de surgimento das séries de McCay (não apenas Nemo, mas os Dreams, Sammy Sneeze, Hungry Henrietta) mas também se verifica.
A ilusão do primeiro cinema, de dar vida a imagens inanimadas (Out of the Inkwell é o exemplo mais citado), parece ter deixado uma marca indelével na forma de pensar esta(s) forma(s) de arte mesmo nos seus desenvolvimentos mais tardios. O que não deixa de ser de um significado extremo nos nossos próprios dias, tendo em consideração que algum tipo de cinema, sobretudo o de Hollywood, tem integrado cada vez mais animação como factor estrutural e substancial das suas produções (O Senhor dos Anéis, Avatar, etc., são filmes de animação com alguns actores?).
O livro é composto por seis ensaios que podem ser lidos singularmente, sem a necessidade uns dos outros. As leituras clínicas (sobretudo dos textos fílmicos) de Bukatman tornam estas páginas em verdadeiras lições de como a interpretação, ou a leitura crítica verdadeiramente dita, de um filme não se pode ater somente a questões de ideologia, representação e significado, mas a estruturas físicas, tecnológicas e afectivas (veja-se a análise de Lust for Life). Como o próprio autor explica, esta não é uma monografia nem uma tese onde se argumenta uma ideia-chave que depois se vai teorizando ao longo das suas páginas. Não obstante essa estrutura mais modular, a verdade é que a leitura de um capítulo (com as suas próprias noções principais, o seu campo de textos, as suas perspectivas mais específicas) acaba por fazer emergir uma ideia mais ou menos integrada sobre uma certa produção cultural, contextualizada num espaço e num tempo (os Estados Unidos que emergem na modernidade do século XX), e que servirá de modelo a, pelo menos, o mundo ocidental que se seguiria (capitalista, democratizado, etc.). O papel destes textos culturais, porém, não são as de meros repositórios de ideologia, ou instrumentos de identidade hegemónicas: são eles mesmos palcos de tensões, negociações, brechas nesses mesmos discursos. Armas cuja funcionalidade principal é mesmo que saia o tiro pela culatra, poder-se-ia dizer. Numa citação que faz de Johan Huizinga, Bukatman fala de “mundos temporários no interior do mundo vulgar, devotos ao cumprimento de um acto apartado” (11). E o que são a banda desenhada, os filmes, toda a arte, afinal, senão “mundos temporários” nos quais jogamos certas decisões cognitivas cujas consequências e aprendizagens são importantes para a nossa própria experiência mas não se inscrevem na realidade tangível do mundo?
Exemplos que Bukatman explora terão sempre a ver com “uma fronteira que é transposta”, associando-se ao mesmo tempo a um “’trazer à vida’ que também traz um movimento entre mundos” (pg. 5). Movimento que também pode significar (e mais uma vez o autor segue Deleuze) um refazer do mundo por essa animação: “uma visão produtiva que refaz e anima [o mundo]” (174, subli. orig.), escreve ele em relação à cena central de Lust for Life, de Vincente Minelli (quando Van Gogh abre as portas sobre a paisagem matinal e florida de Arles).
Retornando à leitura contextualizante norte-americana, de certa forma é algo difícil não ler alguma dimensão de essencialismo neste livro, sobretudo sobre as (supostas ou efectivas) especificidades culturais dos Estados Unidos sobre determinados aspectos partilhados pela civilização, tecnologia e criações artísticas com o resto do mundo ocidental (sendo a Europa o maior termo de comparação; mas que nos levaria a perguntar, qual Europa?). “Os Estados Unidos”, cita-se Serge Guilbaut, no período imediatamente a seguir à 2ª Grande Guerra, “eram vistos como uma terra culturalmente seca, sem sofisticação, rude, anti-humanística e fria. O país era jovem, violento, e tecnológico, bom para filmes mas sem dignidade para participar no discurso antigo e tradicional da pintura” (174). Apesar de se estar num contexto que demonstra como um filme sobre Van Gogh acaba por se estar a referir a uma certa maneira de criar arte, pintura, “à americana” (a mitologia masculina e solitária do Expressionismo Abstracto), a verdade é que aquela frase parece poder ser aplicada a todas as formas de arte abordadas neste livro, vistas como contendo uma energia poderosa, animadora, precisamente, que iria influenciar não apenas a própria arte e os artistas, como toda uma forma de as/os pensar. (E repare-se como de um conceito de um “sentimento feio”, negativo, de Ngai, se passa a uma reapropriação pela positiva).
O último capítulo é dedicado aos super-heróis, eventualmente figurações de um tipo muito próprio de “estado de animação”, “agentes conduzindo-nos através de reinos lúdicos de promessas plasmáticas” (182-183). Bukatman leu Supergods de Morrison num estado avançado do seu manuscrito, mas em muitos aspectos parece-nos próximo das ideias do escritor escocês, considerando essas personagens como factores particulares da imaginação, e que jogam com expectativas genéricas, conhecimentos da sua história (a continuidade, por exemplo), variações temáticas e/ou estilísticas (toda a espécie de “histórias imaginárias”, “what ifs?” e “elseworlds”, etc.), e por aí fora. São até forças condensadas do que Bachelard chamou, na fenomenologia, de “função de irrealidade, a imaginação criativa que nos liberta das restrições e lógica do real” (187). Essa função dos super-heróis associa-se então a toda a sorte de sonhos, fazendo-nos regressar a Slumberland, ou à terra dos pesadelos dos Rarebit… eles são “oásis de fantasias caprichosas” (211).
Alguns aspectos são ligeiramente impressionistas ou tratados com uma brevidade que exigiria maiores desenvolvimentos. Não se tratam dos momentos em que o autor faz humor, algo que é necessário e torna a leitura pautada pela experiência pessoal do autor e até por chamadas a afinidades que poderá ter com os seus leitores. Trata-se antes de tocar num qualquer tema ou conceito que acaba por não se ver discutido – por exemplo, o autor aceita, como tantos outros investigadores, na teoria da “identificação” dos leitores/espectadores com as personagens principais, sem nunca colocar em questão essa ideia, que é na verdade fraca – ou abrir temas que nos parecem de extrema importância e valor mas sem continuação. Por exemplo, a ideia de que a animação de McCay poderia revelar, ao contrário da esmagadora maioria da arte ocidental tradicional, a “referência deíctica”, exigiria um tratamento que acreditamos fosse muito significativo, e garantiria um outro tipo de relevo e força conceptual à própria animação na discussão intelectual da cultura e das artes. Também quando se discute a banda desenhada (por comparação à escuta de singles) como uma “entrega sensorial mais do que um processamento puro cognitivo”, leva-nos a perguntar se existirá algum processo cognitivo “puro”, em primeiro lugar (o cálculo, talvez?; mas esta é uma questão desde logo complexa, já que as ciências cognitivas apontam o entrosamento de toda a espécie de factores, valorativos, culturais, que podem intervir nesses mesmos processos), e em segundo lugar se não haverá uma “entrega sensorial” com todas as formas de arte (sobretudo, mas não apenas nas artes). De certa maneira, recorda-nos aquelas taxonomias que tentam hierarquizar a “passividade” no visionamento do cinema por oposição à “entrega activa” da leitura, etc. 
The Poetics of Slumberland é, porém, aquilo que o título promete: uma descrição muito particular de um modo de fazer, de criar, e que deixa visíveis as suas marcas do fazer, de toda uma série de mundos imaginativos.
A entrevista ao autor encontra-se aqui.
Nota: agradecimentos à editora, pelo envio do livro, e ao autor, pela sua disponibilidade e ajuda.