23 de fevereiro de 2017

Sutrama. Daniel Lima (kuš!)

Uma das formas de respondermos a este livro seria analisar quais são os pontos de desenvolvimento aproveitados por Daniel Lima no seu próprio diálogo com o filme de Robert Bresson, Le diable probablement (1977), do qual aproveitou algumas cenas para a construção deste diálogo entre duas personagens que preenchem as páginas. Uma pesquisa que superficialmente parece ser a de um suicido ou assassinato banal (?) desemboca numa análise lenta, dura e pesada sobre o estado de espírito de uma sociedade desencantada, o que poderia servir de, talvez, descrição de toda a cinematografia (ou será antes a de uma pesquisa que tenta descobrir ainda os últimos laivos de encantamento que nela sobrevivem?) do autor. Lima, todavia, transforma essa ocasião para reconstruir uma espécie de ambiente artificial e mágico no qual a distância entre os corpos (dos “modelos” e não “actores”, para seguir a nomenclatura de Bresson) dos protagonistas e as metamorfoses dos objectos e espaços em torno tem de ser compreendida menos como momentos para criar redes simbólicas, passíveis de uma ulterior apresentação de significados do que uma plataforma para sensações ambivalentes e ainda mais distanciadoras da própria matéria de expressão. (Mais)

21 de fevereiro de 2017

Três títulos da colecção Écritures (Casterman)


Como manda a lei das editoras comerciais, chegará um momento em que se faz não apenas uma reestruturação gráfica e formal das suas colecções, como um balanço interno da sua produção. A colecção Écritures foi alvo precisamente de um redesign, em que as capas passam a ser tratadas a preto com uma segunda cor e os títulos a dourado, criando uma coerência gráfica distinta daquela verificada até agora. Não só foram relançados alguns títulos antigos neste packaging como os novos seguem agora esta linha. Além disso, há um lançamento e abertura de vários novos gestos criativos que estendem os supostos objectivos originais da colecção. Não é que não houvesse colaborações anteriormente, mas o lançamento de La cire moderne, colaboração entre o escritor Vincent Cuvellier e o artista Max Radiguès, e Je viens de m'échapper du ciel, adaptação das novelas policiais coordenadas de Carlos Salem por Laureline Mattiussi parecem confirmar a insistência desse tipo de possibilidades “literárias”. Adicionalmente, o lançamento de Salles d'attente, de Charles Masson, que recupera Soupe Froide e outros relatos, mostra a possibilidade dos tais balanços internos. (Mais)

9 de fevereiro de 2017

15 de Fevereiro: Seminário Banda Desenhada e Pensamento Político: Sessão 4

O Seminário indicado antes continua. 

Estão convidados a aparecer e participar na próxima (4ª) sessão, desta vez sob a forma de um pequeno debate com dois artistas de banda desenhada contemporânea portuguesa, Marco Mendes (Diário rasgado) e Tiago Baptista (Fábricas, baldios, etc.). 

O tema-chave é o "desencanto" e tentaremos falar em torno de questões sobre a representação social que emerge das obras destes dois artistas, o alcance da leitura política que elas permitem, e em que medida é que funcionam os afectos na banda desenhada como espelho da situação actual. 

Apareçam!

3 de fevereiro de 2017

A minha casa não tem dentro. António Jorge Gonçalves (Abysmo)

No final do volume, o autor explica como o título deste livro é retirado de uma “estiga”, que neste caso se refere a uma forma ritualística e lúdica de Luanda de criar narrativas trocadas com interlocutores, com direito a resposta. Usualmente, e mesmo em Portugal, são jogos de insultos mútuos, com ataques e ripostas, uma espécie de rap battle, mas onde o objectivo é o divertimento de todos (às custas dos que se propõem a jogar). É portanto uma forma de exposição, franca, directa, bruta, e em grande medida é isso o que se passa neste livro. Mas é no início que está a nota que explica a razão de ser deste projecto. António Jorge Gonçalves teve um acidente gravíssimo médico que o colocou à beira da morte, ou mesmo para além dessa hipotética fronteira (ele escreve “morri e regressei à vida”). E este acto criativo é uma resposta. Se essa reposta é à aproximação dessa fronteira, à sua travessia, ou ao seu regresso, não sabemos. Sabemos é que deve ser lido. (Mais) 

23 de janeiro de 2017

Groenland Vertigo. Hervé Tanquerelle (Casterman)

O regresso de Tintin. Correndo o risco de nos repetirmos, uma das expressões mais curiosas de escutar em relação à exposição e regular “consumo” da banda desenhada é aquela empregue por leitores adultos de que “cresceram com” determinado título ou género ou autor ou personagem. Depreende-se de que o crescimento é aquele dos interlocutores, em termos físicos, psicológicos, emocionais, uma vez que essa realidade a que se retorna, da banda desenhada, espera-se que se mantenha a mesma, com algum nível de conforto e de confirmação da nostalgia.  Não nos abstemos, como afirmámos a propósito de O testamento de William S., de nos integrarmos pessoalmente em experiências dessa natureza, que ignoram os avisos da lógica mental para acederem de imediato aos centros nevrálgicos da nostalgia e das respostas automáticas de prazeres infantis. Todavia, é o esforço e exigência da educação e da verdadeira maturidade que nos deve fazer procurar por outros domínios da banda desenhada, que com efeito cresceram com os tempos, e dessa forma ora trazem modo mais complexos de narrativas, ora aumentam os graus de referencialidade e integração cultural, ora se estruturam com formas visuais e compositivas mais consentâneas com uma sofisticação próxima da de outras áreas artísticas, e por aí fora. (Mais)

20 de janeiro de 2017

Colaboração no du9. My Ogre Book, Shadow Theater, Midnight, de Marcel Broodthaers.

Como tem sido hábito, transmito aqui a indicação de que está disponível um artigo, na du9.org, sobre uma belíssima edição da Siglio que reúne três obras distintas de Marcel Broodthaers em tradução inglesa: dois livros de poesia e uma colecção de imagens, matérias transformadas num novo projecto que sendo antigo, nunca existira nesta forma. 

Broodthaers é uma referência fulcral da cultura belga moderna, e as suas pesquisas multímodas, acima de todas aquelas que auscultam as fronteiras porosas entre as imagens e a literatura, deveriam ser (e são-no) um modelo para aqueles que trilham o mesmo caminho.

A questão central que nos ocupa é menos a crítica da poesia ou dos projectos artísticos do artista, o que nos escaparia, do que este novo "agenciamento" proporcionado por um novo objecto-livro, que reapresenta um novo fôlego e vida a essas mesmas produções.

Como sempre, a tradução para francês esteve a cargo de Benoît Crucifix, a quem queremos deixar os mais vivos agradecimentos. Merci bien pour ta patience et ton amitié! 0

Link directo, aqui.

13 de janeiro de 2017

Pandora # 2. AAVV (Casterman)


Se em Portugal estamos a seco há décadas em relação a títulos regulares de banda desenhada cujas narrativas sejam publicadas em capítulos, ou que mesmo antologias de histórias curtas saiam somente de quando em vez e usualmente como gestos únicos ou limitados, o mesmo não pode ser dito de outros mercados mais consistentes financeiramente. Esta é apenas uma constatação de factos, não um juízo de valor, já que se tentam várias vezes reatar essas chamas por cá, com fortunas díspares mas quase sempre sol de pouca dura (mas trabalhos em si de qualidade). Em França, por exemplo, ainda há vários títulos que garantem a chamada “pré-publicação”, um pouco para todos os gostos, desde o mais mainstream (a Bodoï, depois transformada em webmag, a Lanfeust) às mais clássicas (Spirou) até mesmo às que servem o círculo independente (a Lapin, agora transformada em jornal). Mesmo assim, no panorama actual mais empobrecido na abordagem convencional – já que em termos de “reportagem em bd” a existência da Révue XXI e La Révue Dessinée apenas nos fará sonhar num mundo mais perfeito -, o surgimento de um título como Pandora encaixa-se num contexto de maior diversidade, mas terá certamente o seu papel. (Mais) 

8 de janeiro de 2017

O testamento de William S. Yves Sente e André Juillard (Asa)

Quando falámos de Sous le soleil du minuit, aventámos a toda essa prática contemporânea no interior do contexto específico da banda desenhada europeia, pautada sobretudo pela criação de “autor”, ou pelo menos de “personagens de um autor”), a que a crítica Jessie Bi havia chamado de profaçon, que a autora, especularmente, descreve recorrendo a outro conceito por ela assinado, a de uma plagionomia legítima. Quer dizer, de uma forma simples, a maneira como o “mercado”, de forma legítima, autoriza que uma obra, um estilo, uma voz, procure ser continuada por outros autores que não o original. Para nos atermos à história da arte ocidental, uma vez que outras estruturas civilizacionais e culturais poderão seguir outros passos bem distintos, e até ao longo da história práticas houve que sustentavam a “imitação do mestre”, aquilo que seria considerado um mero plágio, imitação, derivação, pálida sombra, etc. de um ponto originário na literatura, cinema, ou artes visuais, na banda desenhada é vista como uma “nova vida” para as “queridas personagens”. Nem sequer estamos a falar de pastiches, que são exercícios legítimos e sempre de uma distanciação crítica em relação ao original, provocando sempre uma noção de comparação automática. Mas de uma verdadeira “continuidade”, em que, apesar de tudo, se particulariza a “biografia ficcional” das personagens como se fosse verdadeira. (Mais)

6 de janeiro de 2017

Repeteco. Bryan Lee O'Malley (Companhia das Letras)

Depois do sucesso estrondoso, a nível comercial mas também crítico, de Scott Pilgrim (para o qual terá contribuído sobremaneira a adaptação cinematográfica exemplar de Edgar Wright, tendo nós falado de ambos anteriormente), O'Malley parece ter querido trabalhar temas um pouco mais graves, sem abdicar porém do seu registo visual de “mangá-via-Ocidente”, numa espécie de linha clara, aqui ainda mais sublinhada pelo uso de cores planas para a maior parte das superfícies, gradientes nos momentos certos, linhas coloridas para cenas específicas, e um equilíbrio exímio entre a abordagem estilizada, os momentos chibi, e os pormenores realistas e pormenorizados. Seconds, ou na tradução aqui lida, Repeteco, reitera um tema recorrente do autor – a personagem ligeiramente deslocada de uma certa ideia de “normalidade”, mesmo que dentro de um contexto onde todos afirmam diferenças dessa suposta “norma”, a qual acaba muito diluída. No caso, trata-se de uma jovem chefe de cozinha, Katie, embrulhada numa complexa encruzilhada da abertura do seu novo restaurante, as suas relações profissionais e amorosas e, o que perfaz o cerne da intriga, o seu encontro com uma dimensão fantástica. Nesse “crescimento”, quase faria pensar em Jeff Smith, mas onde Bone é uma obra quase perfeita e RASL menos conseguida, por ser um salto que se move entre géneros mas não entre concentração dos instrumentos, a relação entre Scott Pilgrim e Seconds é a de um desabrochar de uma linguagem interna. (Mais) 

5 de janeiro de 2017

28 de Janeiro: Seminário Banda Desenhada e Pensamento Político: Sessão 3

Na continuidade do Seminário que antes enunciáramos, temos o gosto de vos convidar a aparecer e participar na próxima (3ª) sessão, desta vez dedicada à banda desenhada de super-heróis e o modo como elas respondem à questão das utopias, distopias e eutopias, assim como os contornos éticos pelos quais, historicamente, se balizaram, ultrapassaram, desrespeitaram ou tentaram suportar. 

Desta forma, o convidado é José Hartvig de Freitas, sobretudo na sua qualidade de editor (mas também promotor, tradutor, etc.) de alguns dos títulos de super-heróis de maior peso que têm sido publicados entre nós recentemente, como são os casos da "trilogia desconstrutiva" de Alan Moore et al., Miracleman, V for Vendetta e Watchmen. Participa ainda o investigador e coordenador do Seminário, Helder Mendes e este vosso criado como moderador.

Apareçam!